“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso.”
Bertold Brecht

Durante uma campanha para o cargo executivo é compreensível que se fale mal do incumbente, uma vez eleito, o que se espera é a pacificação, e não há sinal de que venha a ocorrer em curto prazo. O Brasil padece do alto preço da ignorância.
Bolsonaro, antes onipresente entre seus adeptos, hoje se encontra recluso. O homem de conselhos e autopromoção perante aos seus, muito lembra o Burro Falante de Reinações de Narizinho, do Sítio do Pica Pau Amarelo, que surge como um conselheiro advindo do País das Fábulas, mas no final se mostra mais do mesmo, apenas um burro que por muito tempo fora montado por Cel. Teodorico. Bolsonaro não tem a simpatia do Burro Falante, e exerce sem pudor, narcisismo, arrogância, ego inflado, falta de empatia, inexplicável irreverência, não respeita limites, se isola e não assume responsabilidade, características de complexo de Deus, para má sorte do povo brasileiro que o viu diante de uma disputa contra o ex-presidente Lula, que ostenta traços do complexo de Messias, aquele que acredita que veio para salvar o mundo.
Lula maldisse o teto de gastos, aborrecendo o mercado financeiro, que amargou prejuízo de mais de 100 bilhões de reais em um dia, com a queda nas operações da bolsa de valores e alta no dólar, sintomas de desconfiança que ele deveria conhecer, dada a experiência em mandatos anteriores. A participação de quadros não ortodoxos na equipe de transição também incomoda, somado aos indícios de que o núcleo financeiro de seu governo possa ser ocupado por apaniguados em detrimento de nomes esperados como alguém oriundo da formação do Plano Real ou mesmo de Henrique Meireles de renome internacional.
Enquanto um povaréu radical se arrisca em manifestações infrutíferas, invocando erroneamente o artigo 142 da Constituição Federal de 1988, ignorando a real interpretação do texto que clarifica aos brasileiros sobre quais as atribuições das forças armadas, o enunciado pela horda radical é facilmente desmentido na ementa:
- Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.
O artigo nada tem que ver com intervenção ou usurpação de poderes constituídos, mas com o restabelecimento da ordem, tão cara a regimes de direita como se posiciona o governo Bolsonaro. Em resumo, o artigo 142 seria aplicado contra quem tenta promover um colapso social.
Há várias menções de brasileiros governistas promovendo manifestações, até mesmo com motivos nazistas, reforçando a ignorância a serviço da banalização de atos nefastos.
Na pequena cidade de Casca/RS, de 9010 habitantes e 7614 eleitores, Bolsonaro recebeu na última eleição, 72,28% dos votos no segundo turno, os eleitores que contestam as urnas, identificam os eleitores contrários e sugerem marcar com uma estrela do PT as portas dos seus estabelecimentos comerciais, com o intuito de boicotar o comércio, nos remetendo ao uso da estrela amarela colada nas portas dos comerciantes judeus durante a segunda guerra mundial.
Em Niterói/RJ, bolsonaristas fazem orações efusivas no muro do quartel militar do Exército, tendo a bandeira do Brasil como adereço, uma cena que nos faz lembrar o muro das lamentações em Jerusalém, onde judeus fazem suas orações.
Estamos na era da informação, de notícias lépidas e muitas vezes gratuitas, mas deixamos brechas para que as desinformações sejam artifícios para a polarização. As mentiras utilizadas nos trouxeram ao tortuoso caminho da polarização que poderá nos levar a uma guerra entre compatriotas. Pode se até não gostar do tema política, mas para acompanhar as mudanças é necessário o mínimo possível de entendimento.
O que se percebe é que há em curso, um novo episódio do Burro Falante, protagonizado por um velho conhecido, que atuará em seu terceiro ato, denotando que a ignorância pode ser transmitida por quem comanda, tanto nos muros dos quarteis ou nos sindicatos, afetando desde os caminhoneiros até os mais imponentes players da Faria Lima.
Na política, quem muito se explica, está perdendo o jogo e nesse quesito, Lula tende a começar muito mal o seu terceiro mandato.






