QUANDO O VOTO ÚTIL É INÚTIL

“A ignorância, a cobiça e a má fé, também elegem seus representantes políticos”.

Carlos Drumond de Andrade

A campanha eleitoral começou! Há em disputa 513 cadeiras na Câmara dos Deputados, 27 cadeiras no Senado Federal, e mesmo sem que saibamos os nomes, elegeremos também os 27 suplentes dos senadores; 27 governadores estaduais e vices, além das disputas para os cargos de deputados estaduais em contingentes proporcionais aos respectivos colégios e a disputa a Presidência da República e vice. Uma miscelânea que redunda um cenário em que se requer dos candidatos ao executivo, tanto federal como estadual, pragmatismo, sagacidade, e uma dose generosa de insolência para lidar com tanta sordidez e promiscuidade no intento de promover seus palanques.  

O sistema eleitoral brasileiro possui características pouco difundidas. Ao contrário de grandes civilizações democráticas em todos os cantos do mundo, as eleições para o parlamento não contemplam a data da eleição presidencial. Pode não parecer um problema que afete os interesses do eleitor, sobretudo dos candidatos em tempos de eleição, mas atraem negociações por vezes espúrias sem o conhecimento de quem os elegem.

A eleição legislativa em data diversa eliminaria as federações e as coligações, poria o chefe do executivo em campanha única  módica, o oposto do que se vê hoje, uma campanha dispendiosa, em que os principais candidatos prometem aos seus pares, cargos e emendas, e em caso de vitória, eles pagam; o que não ocorre na relação candidato/eleitor.

Para além do esvaziamento do balcão de negócios imposto pelo sistema eleitoral vigente, a separação das eleições, manteria o protagonismo da eleição presidencial, sem tirar do parlamento a importância que se deve ter entre os eleitores, inculcando favoravelmente a cláusula de barreira. Não seria por óbvio a solução de todos os problemas, mas são propostas menores diante da necessidade de uma ampla reforma política.

Quanto à eleição presidencial, os debates irão acontecer nos próximos dias e não há certeza da participação dos representantes dos dois polos que lideram nas pesquisas. O efeito prático das eventuais ausências pode ser o bom aproveitamento de quem lá estará para prestigiar o eleitor, apresentar seus currículos e suas proposituras para o almejado mandato no executivo federal. O mesmo pode acontecer no âmbito das unidades federativas, com seus respectivos candidatos ao governo.

Enquanto isso, os partidos anunciam seus candidatos ao legislativo, alguns sem lastro, com o intento de auxiliar os principais candidatos. Lula, o líder nas pesquisas, alicia sem pudor, candidatos, indubitavelmente sem condições de vitória, na tentativa de se resolver eleição já no primeiro turno. Bolsonaro, que tenta a reeleição, também despudoradamente, assumiu o lobby pela PEC kamikaze, que mira atrair a confiança de sua base, ora combalida, além de ampliar os ativos sociais à população refratária. Propostas, apenas vazias, com prazo de validade – até o final do atual mandato, mas de certo, a participação de ambos em um debate, não agregaria nada ao eleitor, resumindo à discussão do passado tenebroso, o presente ameaçador e o futuro incerto.

A chance mínima de uma candidatura independente ou de terceira via está nos debates. Que os candidatos apresentem boas ideias, para findar os muitos anos de mazelas apresentadas, não por um governo, mas por um regime que muda apenas a roupagem, o voto útil, fica muito claro que é inútil diante desse horizonte. O primeiro-passo para as mudanças profundas em todos os setores da política, qualquer que seja o espectro ou quaisquer que sejam os operadores dos poderes, é de exclusividade do eleitor, ou seja, votar com consciência, observando os atores políticos que melhor representam as nossas regiões, que tenham ficha limpa, que assuma o compromisso de pautar entre seus motes de campanha, o combate ostensivo à corrupção. O modelo atual do nosso sistema eleitoral sugere uma barafunda, com escusadas alianças políticas que sustentam os maus condutores do poder. Um sistema impenetrável para quem de boa fé se apresenta, vide Sergio Moro e Deltan Dalagnol, que não têm e não terão vida fácil na política, tendo o segundo já condenado pelo TCU (Tribunal de Contas da União) por despesas durante a Operação Lava Jato, que não são de responsabilidade dos procuradores. Portanto, votar em branco, nulo ou se abster não deve ser jamais uma razão para se ausentar das urnas, precisamos renovar o Parlamento Brasileiro, para garantir sua independência.

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