AS RACHADURAS DO ESTADO


À primeira vista, uma janela quebrada não parece ter qualquer relação com facções criminosas, soberania nacional ou eleições presidenciais. No entanto, uma teoria formulada há mais de quatro décadas pode ajudar a compreender parte do momento político que o Brasil atravessa.
A Teoria da Janela Quebrada surgiu a partir de um experimento conduzido nos anos 1980 pelo cientista político James Q. Wilson e pelo criminologista George L. Kelling.Dois carros idênticos foram abandonados em bairros distintos de Nova Iorque: um em uma região pobre e outro em uma região rica. O primeiro foi rapidamente depredado. O segundo permaneceu intacto até que uma de suas janelas foi quebrada propositalmente. A partir daquele momento, o carro também passou a ser vandalizado.
A conclusão foi simples: pequenos sinais de desordem transmitem a sensação de abandono. Quando uma janela permanece quebrada, a mensagem implícita é de que ninguém fiscaliza, ninguém se importa e ninguém exerce autoridade. Com o tempo, a desordem tende a atrair ainda mais desordem.Embora a teoria seja alvo de críticas por parte de setores acadêmicos e movimentos sociais, sua influência sobre políticas de segurança pública foi significativa em diversas partes do mundo. Mais importante do que discutir seus méritos ou limitações é compreender a lógica que a sustenta: a percepção de ausência de autoridade produz consequências concretas sobre o comportamento coletivo, e a teoria se torna útil para refletir sobre o Brasil contemporâneo.
O debate atual já não se limita ao combate tradicional ao crime. Em várias regiões do país, facções criminosas exercem influência sobre territórios, impõem regras paralelas, controlam atividades econômicas ilícitas e desafiam, de diferentes formas, a presença do Estado. Em algumas localidades, a população convive diariamente com estruturas de poder que competem com as instituições formais.
A janela quebrada, nesse contexto, deixa de ser uma metáfora urbana e passa a representar algo maior: o enfraquecimento gradual de autoridade, uma percepção que sinaliza transformação silenciosa no debate político nacional.
Nos últimos meses, quadros como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Flávio Bolsonaro passaram a convergir em torno de um discurso mais duro contra o crime organizado. Apesar das diferenças de trajetória, estilo e perfil político, os três parecem caminhar para um diagnóstico semelhante: o de que o enfrentamento às facções deve ocupar posição central na agenda nacional.
Lideranças distintas começam a falar a mesma linguagem sobre segurança pública, isso é sinal de que o problema deixou de ser percebido apenas como uma questão policial e passou a ser encarado como um desafio institucional, em um ambiente que surge como proposta de classificar grandes facções criminosas como organizações terroristas,vinda do exterior.
A discussão possui implicações jurídicas, diplomáticas e estratégicas complexas. Mas, independentemente da posição de cada um sobre a proposta, o simples fato de ela ter ingressado no debate público revela uma mudança importante: cresce o entendimento de que os instrumentos tradicionais podem não ser suficientes para responder ao avanço do crime organizado.
Vide o caso de Goiás.
Sob a gestão de Ronaldo Caiado, o estado registrou reduções expressivas em diversos indicadores criminais. O ponto interessante é que os resultados foram buscados sem reclassificação do narcotráfico, sem estado de exceção e sem qualquer forma de interferência internacional, o que revela um tópico relevante:
Se existem exemplos domésticos de fortalecimento da segurança pública dentro das estruturas institucionais existentes, por que parte do debate nacional parece caminhar diretamente para soluções mais extraordinárias?
A legitimidade política de Caiado decorre, em grande medida, de sua experiência associada à segurança pública. A de Romeu Zema está vinculada à gestão administrativa e ao equilíbrio das contas públicas. Ao convergirem para um mesmo discurso, ambos parecem abrir mão, ao menos parcialmente, dos elementos que os tornavam politicamente distintos.
Talvez isso ocorra porque o tema já ultrapassou a esfera da gestão.
O que está em discussão não é apenas a eficiência do combate ao crime. O que está em discussão é a capacidade do Estado brasileiro de preservar sua autoridade em um cenário de crescente complexidade institucional, no momento em que a segurança pública se aproxima da soberania.
Uma sociedade não passa a discutir medidas excepcionais quando acredita que suas instituições funcionam plenamente. O endurecimento do discurso costuma ser consequência da percepção de que os mecanismos tradicionais perderam capacidade de resposta.
Isso não significa que soluções extraordinárias sejam inevitáveis, tampouco significa que devam ser descartadas automaticamente, significa apenas que o debate precisa ser conduzido com consciência de seus custos, limites e consequências.
A questão central permanece a mesma.
Como restaurar a autoridade do Estado sem comprometer os princípios que sustentam sua legitimidade?
A verdadeira estabilidade não se mede pela quantidade de força que o Estado consegue exercer. Ela se mede pela capacidade de manter uma condição que antigas tradições resumiam em uma única ideia: nada quebrado, nada faltando e nada fora do lugar.

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