“Não deem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão.
Mateus 7;6

O Ministro Luís Roberto Barroso é destaque em uma corte contaminada pela mistura do mal com o atraso e os males secretos que a compõem. O Ministro tem se empenhado com honradez nas funções correlatas ao cargo que ocupa desde que indicado pela ex-presidente Dilma Roussef; votou a favor do seu impeachement quando devidamente provocado na Suprema Corte, se declarou impedido de atuar em processos em que ele teria sido advogado em sua vocação pregressa – caso do terrorista Cesare Battisti; travou batalhas épicas contra o seu colega, o Ministro Gilmar Mendes, um dos mais malqueridos da nação, ganhando a simpatia do povo, em que pese seu posicionamento político original, Barroso nunca escondeu ser adepto da esquerda.
Barroso perdeu a compostura com o público por duas vezes no espaço de apenas seis meses; primeiro em Nova Iorque, quando cunhou a frase “Perdeu, Mané, não amola!”, em resposta aos que pediam a abertura do código fonte; no último dia 12 de julho, Barroso não tolerou os insultos advindos de manifestantes da UNE (União Nacional dos Estudantes), que protestaram pela sua conduta diante do que chamam de golpe de 2016, o impeachment da ex-presidente Dilma Roussef, Barroso em resposta aos protestos, alegou ter ajudado a derrotar o Bolsonarismo, e que teria lutado contra o regime militar.
A fala em Nova Iorque, em primeiro momento causou espécie, Barroso nem era o mais atacado pelo bolsonarismo, o alvo dileto de sempre é o Ministro Alexandre de Moraes, por ser o “depositário do código fonte”, o que para muitos que não sabem do que se trata, é mais ou menos a “rebimboca da parafuseta”, nos anos 80, palavra de fuga de um mecânico ruim quando não sabia identificar o defeito do carro – Moraes em mais de uma entrevista alegou que o tal código já estava disponível um ano antes das eleições de 2022. Barroso saiu em sua defesa, com uma frase burlesca, característica do alegre povo carioca, que por sua espontaneidade, apenas virou meme; já o contra ataque oferecido aos manifestantes da UNE são de difícil deglutição, pois chancela a oclocracia que domina o cenário político.
Oclocracia não é um sistema consagrado de governo, e destoa da democracia, ambos são governos do povo, mas a oclocracia é regida pelas turbas; do grego (oklho = turba + kratia = poder) é definida como um visível despotismo em governos até então democráticos, mas tomado por uma massa que se apropria da coisa pública por meio de inibições das autoridades de turno, ferindo diretamente o Estado Democrático de Direito.
Há pouco vivíamos um governo que estimulava sua militância a atacar outros poderes, hoje presenciamos representantes de outros poderes atacando o povo, e por mais que se nomine o fenômeno como um desgoverno ou anarquismo, a oclocracia se apresenta em forma de desunião entre os poderes.
Lutar contra a oclocracia é uma tarefa árdua, e o primeiro passo é não se unir com grupos que antagonizam com o bem estar social, enquanto hostilizam a quem pensa diferente. É bom ressaltar que a recente mudança no executivo só alterou a agenda, a ralé política que que arquitetou a oclocracia vigente é a mesma, e Barroso, sem jamais abandonar a luta contra a corrupção, vem sendo atacado pelas duas pontas.
A fala do Ministro feriu claramente a harmonia entre os poderes e deu azo a uma nova investida contra o poder que em tese guarda a Constituição Brasileira, levando o à vala comum do contestado escrete do Poder judiciário, muito pela contundência e pela ira que estão fora de suas características.
Falas impensadas, corriqueiramente, não manifestam a realidade, o Ministro Barroso não derrotou o bolsonarismo, sequer ajudou a derrotá-lo, o bolsonarismo pulsa entre nós como uma herança do governo anterior, e entoa o mantra do comunismo que não passa de um fantasma. No executivo, a corrupção continua em forma de balcão de negócios com o legislativo, o que confirma o poder oclocrático que há mais de 20 anos domina o poder.
Tentar remediar sua fala, com a tese de que teria falado como eleitor, não colou, muito menos teria ajudado a livrar o país de um golpe de estado, posto que não houve tentativa de golpe, mas vandalismo, o que foi prontamente rechaçado e vem sendo sistematicamente investigado, ainda que se superestime os atos de 08 de janeiro. Para se caracterizar tentativa de golpe, seria necessário uma liderança efetiva, mas o que se viu, foi uma multidão descontente, ainda assim, dá se a impressão, que o 08 de janeiro se tornará feriado nacional, dada a exacerbada importância dispensada a uma covardia, digna de um política cada vez mais ralé ou um ralé cada vez mais política.
O que se espera de um Ministro da Suprema Corte, para além do notável saber jurídico, é austeridade e discrição, e do momento que assume o cargo político – Ministros da Suprema Corte são quadros políticos, sem bandeira partidária – limita a sua vida privada ao seio familiar. Opiniões de Ministros somente têm algum valor se isentas e quando emitidas em lócus adequado, por óbvio, uma reunião com estudantes militantes é um risco que poderia ter sido evitado. Escolher o ambiente para proferir suas palestras é no mínimo prudente, e se no meio eminentemente acadêmico jurídico, que lá se empenhe a estimular a formação de novos causídicos.
O incidente ocorrido na UNE pela circunstância das tolas palavras de Barroso foi agravado pelo fato de ele estar ao lado do Ministro da Justiça, Flávio Dino, que desde o advento do atual governo, é sondado ou mencionado como futuro Ministro do Supremo Tribunal Federal. Em que pese, seja o Sr. Flávio Dino, um fiador natural da angustiante oclocracia. Ato contínuo, membros infradotados da oposição, apresentaram pedidos de impeachment do Ministro Barroso.
“Quo Vadis, Barroso?”. Para onde vais, Barroso? Me aludo a um desvio daquele que sempre procedeu com sensatez e justeza o seu trabalho, com largo espírito de justiça e imparcialidade, que como ser humano, falhou, mas há tempo de voltar o foco, assumir seu bastão e seguir em frente.
Valendo me ainda do aconselhamento, me dirijo com a frase que virou meme, esta, parafraseada do rei Juan Carlos I em direção a Hugo Chaves em 2007, durante a XVII Conferência Ibero-Americana, no Chile. “¿Por qué no te callas, Barroso?”. Por que não te calas, Barroso?
