Teorias conspiratórias não fazem parte do meu cotidiano, não as contemplo, não as divulgo ou compartilho. Sempre trazem algo de subjetivo nas exegeses, além de fomentar algo que está em voga, as famigeradas “fakenews” (notícias falsas) comumente afloradas no imaginário de quem as lê, no entanto, observo com muita preocupação a soltura de tantos criminosos condenados, coincidentemente no mesmo período em que o ex-ministro Sérgio Moro se desvincula efetivamente do governo, com o fim da quarentena obrigatória de seis meses, imposta pelo Conselho de Ética da Presidência.
Enquanto Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, em uma de suas sobranceiras tarefas, cortou a cadeia de relacionamento entre as variadas facções do crime organizado. Bandidos de alta periculosidade foram transferidos e sem comunicação entre seus pares e inimigos quedaram sem condições de comandar suas camarilhas, similar às glórias de Héracles no intento de eliminar Hidra de Lerna (mitologia grega) o dragão de incontáveis cabeças. Após várias tentativas frustradas, pois a cada cabeça decepada, nasciam duas no mesmo lugar, Héracles, com um tição, cauterizava as feridas, eliminando assim, o monstro.
Quando Moro foi defenestrado de maneira sórdida e abjeta do Governo Federal, ficou impedido por força de lei, de trabalhar no direito privado; a Moro fora deliberado o direito de prestar consultoria, lecionar e trabalhar como articulista, mantendo o salário de ministro e segurança armada e todo o seu aparato.
O artigo 316 do Pacote anticrime determina que a prisão preventiva seja revista a cada 90 dias, não o sendo, o preso poderá sair pela porta da frente, como foi o caso de André Oliveira Macedo, o André do RAP. O artigo em questão fora deveras contestado, mormente pelo então Ministro da Justiça e Segurança Pública, que utilizara muito do mesmo artifício no âmbito da Operação Lava Jato.
Em meio a tudo isso, especula se que Moro e família irão deixar o Brasil, a especulação, chega como forma de notícia e eriça a testa de tropa do Governo Federal, a militância cega do Presidente Bolsonaro, que não se pospõe em ridicularizar o ex-ministro, o chamando de covarde, fujão entre outros adjetivos nada pomposos. Caso a especulação se confirme, faço a leitura de que Moro está preocupado com a sua integridade física.
Moro cometeu um erro, o de entrar na política, ainda que em cargo executivo, com a promessa de que teria “chapa branca”. Moro, lamentavelmente, entrou para legitimar o populismo do atual governo, foi usado em um discurso falso e raso de combate a corrupção, encontrando óbices desde a primeira semana no ministério, vide caso COAF, que passou do Ministério da Justiça para o Ministério da Economia. Existem muitos exemplos no mundo, de homens honrados e versados no meio jurídico que enveredaram pelo caminho da politica, mas que nem sempre lograram o objetivo almejado, às vezes, redundando em trágicos fins. Escolhi dois exemplos, que abaixo, relato:
- Estes Kefauver, político norte-americano, que atuou como Senador pelo Partido Democrata, se destacou ao presidir uma comissão do Senado contra o crime organizado. A comissão recebeu o epíteto de ”Kefauver Hearings”, Comitê Kefauver, em tradução livre. Kaufever, convocou ao Senado norte-americano grandes nomes do crime organizado, como testemunhas, inclusive Fred Costello, nome proeminente da máfia, levando a efeito a prisão de gangsters nos Estados Unidos da América e contribuindo para a ruína de políticos de renome à época, envolvidos em corrupção. Kefauver conquistou protagonismo politico, encorajando o a pleitear a Casa Branca, mas perdeu para Truman em 1952. Em 1956 concorreu a vice-presidente de Adlai Stevenson, e não prosperou, perdendo para a chapa encabeçada por Eisenhower. Era o fim da história política de Estes Kefauver, que morreu em 1960.
- O promotor italiano Antonio di Pietro liderou com intrepidez a Operação Mãos Limpas, tornando se a figura mais popular na Itália em meados dos anos 90. Di Pietro fora convidado a participar do Governo Berlusconi, mas recusou. Em 1996, aceitou o convite de Romano Prodi, assumindo o Ministério de Obras Públicas, mas em uma investigação, fora acusado de corrupção, mais tarde, inocentado. Di Pietro deixou o governo, fundou seu próprio partido (Itália de Valores), retornando ao ministério em 20006; se elegeu Senador. Hoje em dia, se diz arrependido por ter ingressado na política; possui um escritório de advocacia em Roma. Fica claro, que em ambos os casos – recusa e aceitação – havia uma tentativa de legitimar os maus vezos dos governos, tanto de Berlusconi como de Prodi.
Moro na política é um caminho sem volta. Ao ser ridicularizado por apaixonados bolsonaristas, quando optou zelar por sua biografia, o ex-juiz e ex-ministro, se posicionou como o principal inimigo das duas vertentes políticas que dominam o Brasil desde a redemocratização, além de nutrir antipatia dos criminosos que operam em profusão.
A integridade física de Sérgio Moro é de interesse público. O atual decano do STF, Marco Aurélio de Mello, abriu as portas da prisão para a saída de André Oliveira Macedo, o André do Rap, membro ativo e de alta “patente” do PCC, vimos mais tarde, após pesquisas exaustivas, que 79 bandidos de alta periculosidade foram soltos pelo mesmo ministro, 21 são foragidos da justiça.
O jogo político está em curso, visando às eleições de 2022, mesmo estando às vésperas das eleições municipais. Quem realmente merece vencer o jogo, é o eleitor, e hoje, posso dizer que o eleitor que goza de sua plena consciência, fora derrotado em 2018, até mesmo aqueles que comemoraram o que supunham ser a redenção ou fim de uma era.
Quanto ao Preclaro Dr. Moro, que continue escrevendo sua biografia com a pena da justiça, a mesma que lhe alçou à condição de homem honrado, e que aqui ou em qualquer outra plaga, continue reverberando a justiça que sempre empregou em favor de um povo cansado da impunidade. Mas que Sérgio Moro esteja no Brasil em 2022, e que seja alternativa ao discurso baixo e realizações toscas e insanas!