“O futuro é como um ovo de serpente. Através de uma frágil membrana, distingue se um réptil formado.”
Ingmar Bergman

O Ovo da Serpente é um filme do sueco Ingmar Bergman que tem como cenário a Alemanha no período entre guerras; o país vivia uma tenebrosa recessão, com inflação de 29000%, onde um pãozinho custava quatro milhões de marcos, um maço de cigarros custava 8 bilhões de marcos. A trama retrata a saga de três judeus circenses que desempregados, em ambiente lúgubre, aceitaram trabalhar em uma clínica de experimentos com humanos. O título da obra se tornou metáfora para todas as questões inconcluídas, por sugerir o surgimento de tempos ainda mais sombrios na Alemanha, quiçá no mundo, o nazismo, o que se confirmou com a ascensão de Adolf Hitler, dez anos depois.
No Brasil de panorama político polarizado é possível também aplicar a metáfora; com a coincidente redemocratização e o início de uma nova constituição, tal como na República de Weimar; cá também com índices de inflação assombrosos em seu início.
Diferentemente do que era a Alemanha dos anos 1920, o Brasil redemocratizado enfrentou turbulências típicas de país de terceiro mundo, como alta inflação e dois processos legítimos de impeachment contra presidentes da república, mas em algum momento, o país conquistou respeito no mundo pela moeda forte, o Real e o combate à corrupção que assola o Brasil, porém, há vinte anos, vivemos uma dicotomia rasa que impede o exercício de discernimento do eleitor, que empunha uma bandeira imaginária de direita ou de esquerda, sem entender exatamente o significado, mas em nome de um líder para tratá-lo como salvador da pátria, enquanto os experimentos se seguem. Aqui não sabemos ainda se somos os pesquisadores ou as cobaias humanas, em referência à obra de Ingmar Bergman.
Recentemente, assistimos atônitos – salvo à shadenfreude dos adoradores de Lula – à cassação do Deputado Dallagnol, e já ocupamos a fila do gargarejo para assistir a inegelibilidade de Jair Bolsonaro, o mito de alguns milhões de brasileiros.
A premente cassação dos direitos políticos de Bolsonaro pode ser mais um ovo da serpente incubado, a martirização de um político populista que divide a atenção com outro de igual quilate tende a polarizar ainda mais, arruinando momentaneamente a carreira de um líder, motivando o surgimento de um substituto por oito anos – período de inegebilidade.
Na ciência política usamos a teoria do bode na sala, que é a troca de algo ruim por algo pior, que proporciona o retorno do anterior como um alento, e é razoável admitir que o ovo da serpente é fruto dessa teoria, no nosso caso de acentuada divisão, pode se prever alternância de poder, com prejuízos à nação.
A filósofa Hannah Arendt, fez a cobertura jornalística do julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém em 1963. Para o New Yorker, Arendt descreveu Eichmann como um oportunista, de ex-vendedor, de parcos recursos, a um cumpridor de ordens que conquistou a confiança do Führer. Contudo, Arendt não estava o perdoando ou o absolvendo dos crimes de guerra por ele cometidos – Eichman fora responsabilizado pela morte de mais de 400 mil judeus; ela havia compreendido os motivos que o levaram a enviar judeus para os campos de extermínios, surge neste contexto, a banalidade do mal.
O mal se torna banal quando uma figura proeminente se abstrai das condutas éticas e assume mau comportamento, oferecendo prejuízo a outrem, invariavelmente com o respaldo de cúmplices, os ditos oportunistas, como interpretado por Arendt.
Quando o ex presidente Fernando Henrique Cardoso indicou para a Suprema Corte, o Minsitro Gilmar Mendes, a escolha pareceu acertada, Mendes já possuía notório saber jurídico, tinha um ótimo currículo de carreira sólida versada no Ministério Público. Ao longo dos governos Lula I e II, Gilmar Mendes foi um implacável e pragmático orador contra a corrupção e apoiador inconteste da Força Tarefa que viria desbaratar a quadrilha que se ocupava de corrupção sistêmica, liderada, não por acaso pelo próprio então ex presidente. Ocupante há mais tempo na Suprema Corte, Gilmar Mendes foi motivado a exercer o mal de forma banal, quando confrontado, e hoje é uma ferramenta inoxidável contra os operadores da justiça.
O mesmo pode se dizer do Ministro Alexandre de Moraes, indicado pelo ex presidente Michel Temer, com uma folha de bons serviços prestados na Segurança Pública do Estado de São Paulo e Ministro da Justiça, Moraes foi provocado durante quatro anos pelo ex presidente Bolsonaro, que extraiu do Ministro, seu instinto mais perverso. Mais um exemplo da banalidade do mal, oportunizada por um fracassado golpe de estado, mal gestado durante uma eleição decidida com 1,8%. Moraes enfrentou com galhardia qualquer um que se opusesse aos ditames da lei, mas ganhou envergadura para afrontar o Estado Democrático de Direito censurando formadores de opinião.
No Senado Federal, Zanin, o novo indicado, já é um quadro político e entre suas promessas de campanha, há a de se declarar impedido nos julgamentos que envolvam seu ex cliente mais famoso. O mesmo não foi dito a respeito dos julgamentos que envolvam a Operação Lava Jato e/ou seus atores, talvez porque não foi interpelado por aqueles que podem evitar a eclosão de novos ovos da serpente, ou por fazer parte de uma ninhada sólida comandada por dois líderes, um incumbente, outro tentando se equilibrar na ribalta política dividindo diametralmente um auditório cada vez mais néscio.






