TRISTÃO E ISOLDA NO IMPÉRIO INCA

Uma crise no Judiciário é o que o povo brasileiro menos precisa, especialmente neste momento de instabilidade política. Contudo, afirmar que isso surpreende, ao menos os mais atentos, soa exagerado. A Suprema Corte brasileira tem muita pompa, começando pela própria nomenclatura –  Supremo Tribunal Federal  – sendo o termo “supremo” o mais valorizado em seu título. A corte é, notadamente, um agrupamento de aliados do poder, e poucos dos indicados para a toga são verdadeiramente qualificados tecnicamente para o cargo de ministro.
No prazo de uma semana, três acontecimentos vindos do STF alertaram o povo brasileiro. Primeiro, o Ministro Gilmar Mendes, o decano, resolveu, por sua conta e risco, mudar os trâmites de impeachment de Ministros do STF, alterando o entendimento da Lei nº 1.079, de 10 de abril de 1950, que regula o impeachment. No texto original, qualquer cidadão brasileiro pode pedir o impedimento; agora, com a canetada de sua excelência, somente o Procurador-Geral da República tem essa prerrogativa. A resolução causou assombro no Parlamento, que mais uma vez testemunhou suas atribuições serem usurpadas. No entanto, devemos contemporizar, pois tudo isso se dá pela inépcia do Congresso Nacional.
O caso mais assustador veio à tona pela jornalista Malu Gaspar, que revelou uma viagem internacional do Ministro Dias Toffoli ao lado do advogado Augusto Arruda Botelho. Ambos estiveram na final da Copa Libertadores em Lima, no Peru, a bordo de um jatinho privado. A controvérsia reside no fato de que Botelho defende o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, cuja relatoria do processo está sob a responsabilidade do mesmo Ministro. O episódio gerou grande repercussão até mesmo dentro da Corte, onde Toffoli alega que, no momento do voo, nada sobre o caso Master fora falado. Mesmo assim, o fato suscita graves questionamentos éticos, motivando o Ministro Fachin a defender a criação de um código de conduta ética no Supremo Tribunal Federal.
A normalidade com que Dias Toffoli trata o assunto me remete ao clássico lendário Tristão e Isolda, onde ética não se comprova apenas com palavras, mas pela coerência entre discurso e conduta. Na lenda, há uma cena emblemática: acusada de traição, Isolda precisa jurar inocência diante do rei e do povo. Para escapar da condenação, ela monta um embuste. Tristão, seu amante, disfarçado de mendigo, a carrega nos ombros até o local do julgamento. Diante de todos, Isolda declara solenemente que “nenhum homem, exceto o rei e aquele mendigo, jamais a tocou da cintura para baixo.” Tecnicamente e linguisticamente, ela falou a verdade. Mas todos sabiam da mentira por trás do artifício.
Mais uma reportagem de Malu Gaspar desnudou a relação despudorada entre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o escritório de advocacia de Viviane Barci, esposa do Ministro Alexandre de Moraes. Foram encontradas mensagens no dispositivo de Vorcaro recomendando aos seus executivos agilidade no pagamento de honorários advocatícios – um contrato de três anos no valor de R$ 129 milhões. Uma daquelas situações em que, embora não seja ilegal, é claramente imoral.
Cônjuges e familiares de ministros do STF podem, sem impedimento legal, atuar na defesa de réus ou investigados que respondam à própria Corte. E fazem isso com complacência, ignorando que condutas tão fora de contexto projetam sobre o Supremo o aspecto de uma verdadeira máfia. É assim que o povo enxerga: quando a exceção vira regra, a percepção pública se contamina.
O travel buddy de Augusto Arruda Botelho, já citado — Ministro Dias Toffoli — ainda colocou o caso Master sob sigilo absoluto. E nós, pagadores de impostos, ficamos privados do direito de saber o que ocorre na mais alta instância do Judiciário brasileiro.
A ausência de limites claros, a falta de prestação de contas e a crescente promiscuidade entre os poderes corroem a confiança da sociedade nas instituições. Se um ministro do STF pode voar em jatinho privado com o advogado de um réu bilionário e, ainda assim, alegar que tudo ocorreu “dentro da legalidade”, resta-nos perguntar: em qual legalidade? Se o decano da Corte decide, por conta própria, alterar diretrizes que impactam diretamente o Legislativo, aviltando as prerrogativas das casas parlamentares — para que serve, então, o Congresso Nacional? Se a esposa de um ministro pode receber valores vultosos de réus que, em tese, serão julgados pelo seu cônjuge, onde está a moral? E mais: se o procurador-geral da República assiste a tudo, impassível, não estaria ele prevaricando? São questionamentos que embaralham a mente de um povo que clama por civilização política.
Não se trata apenas de aparência – embora esta já seja grave,  mas da substância ética que deve reger o comportamento de quem julga a nação. Em qualquer democracia madura, episódios como esses levariam à aberturas de investigações internas e possíveis afastamentos. No Brasil, contudo, o máximo que se discute é a sugestão de um “código de conduta”, como se ética fosse algo opcional ou negociável. O povo, mais uma vez, é espectador da degradação silenciosa da justiça.
O índice utilizado para medir a corrupção percebida é o Índice de Percepção da Corrupção (IPC), da Transparência Internacional. A pontuação do Brasil foi de 34 – em uma escala de 0 a 100, onde 0 representa um país altamente corrupto e 100, altamente íntegro. No ranking global, o Brasil ocupa a 107ª posição entre 180 países, sua pior nota desde que o índice passou a ser calculado com a atual metodologia, em 2012.
É um disparate para um país que possui elementos formais de accountability, como agências reguladoras, tribunais de contas e um Ministério Público robusto. Existem leis e mecanismos voltados à transparência, ao combate à corrupção e à prestação de contas. No entanto, seu funcionamento é frequentemente anômalo, lento e dependente de articulações políticas e interesses institucionais.
O resultado é um sistema que, embora tecnicamente estruturado, acaba submetido à vontade de onze ministros indicados — figuras que, na prática, colocam o mapa do Brasil sobre a mesa da Comissão*.

Comissão: Alusão ao órgão máximo que decide sobre questões intrafamiliares na Cosa Nostra Americana. Portanto, uma reunião da Comissão seria um encontro de alto nível.

ATÉ O LADRÃO TEM PERDÃO, MAS O BURRO…


“Errar é humano. Ser apanhado em flagrante é burrice”.
Millôr Fernandes


O Brasil ganhou uma nova tradição com a agudização da dicotomia que permeia o comando da nação: a de ex-presidentes condenados e presos. O retrato atual é o de dois burros arrastando o país por caminhos opostos, mas igualmente funestos. Um veste a carapaça do político espertalhão; o outro exibe uma obtusidade flagrante. Enquanto o primeiro avança com estultícia, o segundo se torna escravo de suas próprias logorreias. A história que empaca o Brasil encontra paralelo na Fábula dos Dois Burros, como relato abaixo:
Dois burros viajavam juntos. Um levava sacas de açúcar e o outro, fardos de esponjas. O primeiro, mais cauteloso, alertou o companheiro sobre os perigos da estrada e a necessidade de caminhar com cuidado. O segundo, jactou-se de sua esperteza em simplesmente seguir os rastros dos outros animais que haviam passado por ali.
Mais adiante, eles chegaram a um rio cuja ponte havia desabado. O burro com açúcar entrou na correnteza e, à medida que avançava, sua carga se dissolvia na água, tornando-se mais leve e permitindo que ele chegasse à outra margem sem grandes dificuldades.
Observando o “sucesso” do primeiro, o burro das esponjas, confiante em sua estratégia de imitação, lançou-se imediatamente ao rio. Contudo, em vez de sua carga diminuir, as esponjas absorveram a água, tornando-se extremamente pesadas. O burro, incapaz de suportar o peso extra, afundou e foi levado pela correnteza.
Lula foi condenado a doze anos de prisão por corrupção – uma condenação amparada por provas robustas – embora jure, até hoje, inocência. Cumpriu apenas 580 dias no cárcere e de lá saiu triunfante, rumo a uma nova investida ao Palácio do Planalto, de onde agora dita as regras de um governo pusilânime e perdulário. O atual Presidente da República valeu-se de uma estratégia política certeira: não afrontou o sistema, mas elegeu como vilão seu algoz, o ex-juiz e hoje senador Sergio Moro – justamente quem desbaratou a quadrilha petista. Aliou-se aos morubixabas do Judiciário e a jornalistas enviesados. E agora, de volta à cena do crime, assiste de camarote à derrocada de outro condenado, este mais afeito ao confronto, fiando-se em seus próprios tentáculos – os filhos trapalhões.
Jair Messias Bolsonaro foi eleito Presidente da República em 2018, trazendo a tiracolo a esperança de 57 milhões de brasileiros exaustos dos anos de corrupção. Com um discurso raso, porém firme, apresentava-se – ainda que involuntariamente como o novo Barão do Rio Branco, o diplomata que consolidou as fronteiras brasileiras – notável por seu patriotismo exacerbado.
Como um pai cioso, no ímpeto de proteger o filho primogênito – Flávio Bolsonaro da acusação de peculato, cedeu aos encantos de um asno arrependido da Suprema Corte, e estendeu-lhe a mão – um gesto simbólico que selou um pacto silencioso e escravizou o então Presidente. Transformou-se, assim, em um bode na sala da República. Era preciso, afinal, retornar à normalidade perversa de um Estado corrompido até as entranhas.
Agora, Jair Bolsonaro está preso preventivamente por outro inquérito, ainda em prisão domiciliar, viu seu fiho conclamar uma manifestação aparentemente religiosa no entorno de sua casa – vale lembrar que até hoje se cobra do Ministro Alexandre de Moraes explicações sobre “as velhinhas com Bíblias nas mãos”, supostamente presentes nos atos de 8 de janeiro e que, ainda assim, foram julgadas e condenadas.
O roteiro parecia traçado, e concomitantemente, Bolsonaro violou o adereço eletrônico, o que forçou uma medida mais enérgica do Ministro, caso contrário, poderia ser acusado de prevaricador.
Pode ser que, enquanto você, caro leitor, esteja lendo estas linhas, o acórdão já tenha sido divulgado e o ex-Presidente já esteja cumprindo sua pena. Mesmo que não, que este período na prisão lhe sirva de reflexão, que sua consciência lhe faça ouvir o chamado da racionalidade. A grita pelo poder a qualquer custo lhe oferece dias de cárcere. Queira ou não, Bolsonaro é um líder proeminente da direita brasileira – a mesma direita que, desde a redemocratização, não deu certo por falta de articulação. O entorno do ex-Presidente precisa se posicionar com falas moderadas, com respeito, e entender que o jogo político é estratégico, como qualquer jogo de equipe: não basta arregimentar um rebanho, não dá para apostar sem calcular os riscos. Aliás, se a insistência pelo jogo de azar persistir, que ao menos, na próxima eleição o burro não seja o sorteado.

PERSPECTIVA ELEITORAL COMPARADA: SERGIO MORO/CARLOS BOLSONARO

No contexto do PL catarinense, algumas análises indicam que a candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado Federal poderia se sobrepor à da deputada Carol de Toni, considerada a candidata natural do partido no estado. Tal situação ocorre mesmo com o apoio público da primeira-dama, Michele Bolsonaro à deputada, evidenciando tensões internas na estratégia eleitoral e levantando hipóteses sobre decisões baseadas em projeções políticas e influência familiar, mais do que em critérios de representatividade local, um desafio do sobrenome Bolsonaro, ignorando o politicamente correto, demandado pelo público feminino – um homem irá ocupar o espaço de uma mulher, na disputa por uma cadeira no Senado Federal.
Uma candidatura se constrói a partir dos registros eleitorais, além dos vínculos efetivos com a circunscrição em que o candidato pretende concorrer, e o precedente aberto por Sergio Moro, impedido de disputar o Senado em São Paulo em 2022 por ausência de comprovação de vínculo (Processo nº 0600053‑16.2022.6.26.0005, TRE‑SP), evidencia a importância do domicílio eleitoral como condição legal de elegibilidade. O vínculo de Moro com o Paraná já era sólido  à época da eleição, tanto que havia uma grita pela sua candidatura à Presidência da República e as pesquisas de intenção de voto indicavam 8%–10% para a corrida presidencial naquele momento. O curioso, que a candidatura de Rosângela Moro foi deferida à Câmara dos Deputados por São Paulo, à despeito de apresentar o mesmo domicílio eleitoral do marido, um hotel em São Paulo, numa absoluta falta de interpretação ou de critérios, o importante, é que ambos foram eleitos a Senador e a Deputada, respectivamente.
Hoje,  a possibilidade de Carlos Bolsonaro disputar cargos em Santa Catarina revive ao tema. Dada a notoriedade e o poder econômico da família, algumas análises políticas especulam sobre o estabelecimento de vínculos estratégicos, como aquisição de imóveis, haja vista o histórico de compras com pagamentos em espécie, especula se ainda, registros de empresas ou atividades profissionais no estado. É imperioso destacar,  que não há informações públicas que confirmem  vínculos, de modo que qualquer avaliação sobre elegibilidade depende de documentação oficial e decisão da Justiça Eleitoral. 
Além das questões eleitorais formais, Carlos Bolsonaro se destaca por sua habilidade nas redes sociais, instrumento que contribuiu de maneira significativa para a campanha presidencial de 2018. Seu papel não se restringe ao ambiente digital: relatos de bastidores indicam que sua atuação influenciava nas  decisões do pai, enquanto Presidente, e negociações políticas, inclusive em mesas de negociações internacionais, reforçando a importância de compreender sua presença estratégica no cenário político brasileiro. Hoje vimos o mesmo acontecer com Janja da Silva, a atual primeira-dama.
Carlos Bolsonaro é reconhecido como uma figura torpe, de baixo nível intelecutal, e há um episódio que dificilmente cairá no esquecimento, inclusive do seu auditório, a confusão entre LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados)  e LGBT (Lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) durante sessão na Câmara Municipal do Rio, que reforça debates sobre o preparo técnico necessário para o exercício de funções legislativas. Situação que denota  como a falta de domínio sobre temas essenciais pode afetar a percepção pública e a confiança na atuação de representantes eleitos. 
Em síntese, embora o poder econômico, a influência familiar e a capacidade estratégica em redes sociais possam gerar especulações sobre a elegibilidade de Carlos Bolsonaro, a Justiça Eleitoral e os precedentes jurídicos continuam sendo os instrumentos decisivos para aferir a elegibilidade. O caso Moro oferece um marco de análise: a ausência de vínculo efetivo com a circunscrição pode, sim, resultar em impedimento, independentemente de projeções políticas ou conjecturas sobre estratégias de estabelecimento de vínculos. Assim, qualquer análise deve se apoiar em hipóteses prudentes, fatos públicos e interpretação legal, mantendo rigor e sobriedade na avaliação, mas é bom que fiquemos todos atentos se os mesmos critérios que alijaram Sergio Moro do maior colégio eleitoral do país, serão aplicados ante à intenção de Carlos Bolsonaro e seu staff no estado mais conservador do Brasil.

RIO MANCHADO DE SANGUE

A polarização política que vivenciamos hoje fatalmente produzirá frutos insalubres nos próximos anos, caso não haja um esforço conjunto para extirpá-la. O exemplo mais recente vem do Rio de Janeiro, que voltou às manchetes internacionais após a desastrosa Operação Contenção, que resultou na morte de mais de 120 pessoas no Complexo do Alemão e na Penha. Entre os mortos, estão quatro policiais; os demais, em sua maioria, eram ligados ao tráfico de drogas, atuantes no Comando Vermelho, outros 113, foram presos.
Nos anos 1960, Carlos Lacerda, à frente do então Estado da Guanabara, decidiu “limpar” a cidade, removendo moradores dos morros do Rio de Janeiro para a recém-criada Cidade de Deus. A proposta vinha acompanhada de promessas de infraestrutura, escolas para as crianças e um comércio autossuficiente, independente das zonas centrais e nobres da cidade. O objetivo era claro: esconder a população desfavorecida e preservar os pontos turísticos. Embora a retirada dos moradores tenha sido compulsória, não havia um regime que os obrigassem a permanecer na Cidade de Deus, o que levou a sucessivos retornos às favelas — num movimento cíclico de idas e vindas que persiste até hoje.
Em 1983, Leonel de Moura Brizola/PDT, assumiu o Governo do Rio de Janeiro e, logo no início de seu mandato, se contrapôs à política habitacional de Carlos Lacerda, e a classificava como excludente. Embora não tenha autorizado oficialmente o retorno às favelas, Brizola fez vistas grossas a quem regressava, numa tentativa — segundo sua visão de esquerda — de corrigir o que considerava uma política de higienização social. Essa guerra urbana escancara o povo como elo mais frágil, especialmente quando submetido a disputas ideológicas extremas, como as que testemunhamos nos dias atuais.
Os morros do Rio — que oferecem algumas das vistas mais privilegiadas da Cidade Maravilhosa — se tornaram, ao longo do tempo, ambientes hostis e marcados pela ausência do Estado. Esse vácuo de governança favoreceu o surgimento de grupos criminosos, como o Comando Vermelho (CV), que emergiu na década de 1970 dentro do sistema penitenciário da Ilha Grande. Nascido da convivência entre presos comuns e militantes políticos, o CV misturou ideologia e crime organizado, estabelecendo códigos próprios, impondo controle territorial, captando armas de grosso calibre e espalhando o terror entre os moradores das comunidades.
O Comando Vermelho se expandiu para territórios do Norte e Nordeste do país, onde novas lideranças floresceram. Paralelamente, surgiram dissidências — como o Terceiro Comando e o ADA (Amigos dos Amigos) — consolidando a facção como uma das mais temidas organizações criminosas do Brasil.
No mesmo período, surgiram também as milícias, compostas majoritariamente por ex-policiais, agentes da ativa e criminosos infiltrados no sistema. Ao contrário dos traficantes, que dominam os morros, as milícias se estabeleceram nas áreas planas, as chamadas “bases”, e operam até hoje com uma farta cesta de produtos clandestinos: TV a cabo, internet, gás, luz elétrica e cobrança de pedágio de comerciantes locais.
O Rio de Janeiro vive uma guerra particular, que já não se restringe aos morros. Trata-se de um conflito nacionalizado, onde tráfico e milícias armadas disputam, palmo a palmo, territórios, mercados e influência política.
Recentemente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou categoricamente que a missão em curso no Caribe é “matar traficantes” que enviam drogas para seu país. A retórica, populista e belicosa, soou como um comando no espectro da direita, da qual ele é expoente. Embora a tradição política americana siga sua própria cartilha — centrada na disputa entre republicanos e democratas —, a declaração funcionou como uma autorização para matar.
Desde o início da operação no Complexo do Alemão, multiplicaram-se os discursos de que “bandido bom é bandido morto” ou que o governador Cláudio Castro teria feito uma “faxina”. No entanto, convém lembrar que a pena de morte não existe no ordenamento jurídico brasileiro. E é apenas por essa razão — a ausência legal de tal penalidade — que não classifico a operação como um fracasso, mas um desastre: há, infelizmente, uma base social que legitima a execução sumária como política pública,
No Brasil, esse discurso é recorrente e não faltam precedentes. O massacre do Carandiru, em 1992, ceifou a vida de 111 detentos; e a chacina da Candelária, em 1993, exterminou oito  jovens em situação de rua — este sim, exemplo explícito de higienização social.
O Rio de Janeiro continua lindo — mas chora, e continuará chorando seus mortos diante de um ciclo de violência, retórica de guerra e, sobretudo, a ausência de uma política pública consistente voltada para a educação como ferramenta de reconstrução social. Não se vislumbra solução no curto ou médio prazo; a repressão apenas alimenta a barbárie.
Sem investimento seguro, transparente e continuado em educação básica, cultura, saúde e oportunidades de mobilidade social, o Rio seguirá como uma vitrine turística cercada por desmandos. Enquanto o fuzil for mais acessível que um livro, jovens continuarão sendo enterrados em valas comuns, numa das cidades mais belas do planeta.

O SINDICALISTA E O EMPRESÁRIO


O encontro entre Lula e Trump foi minuciosamente encenado, com invulgar semelhança às negociações entre um sindicalista pitoresco e um empresário rancoroso: pareciam não querer estar ali, mas ambos queriam sair bem na foto — como se diz no meio político, ‘o retrato que o povo precisa’. Para isso, uma verdadeira mise-en-scène foi montada, permitindo que entoassem discursos aparentemente respeitosos. A militância, enfadada e dividida, se precipitou em interpretar os gestos e posturas dos dois atores, tentando extrair alguma mensagem oculta. E, para surpresa de absolutamente ninguém, ambos se saíram muito bem no papel. Lula, como de costume, repetiu a cantilena de que foi vítima de um processo sem direito ao contraditório — uma mentira convenientemente sustentada pelo conforto da memória seletiva. Foram centenas de recursos, dezenas de manifestações, ampla defesa assegurada em todas as instâncias, enquanto Trump… fingia acreditar!
Noves fora a concisa análise díade acima, o que ocorreu, foi uma reunião em ambiente neutro para tratar de desacordo comercial entre duas nações soberanas, a tarifa de 40% excedente, que até aqui pouco incomodou o Presidente Lula, embora setores do agronegócio tenham sentido o baque – só para se ter uma ideia do impacto, o Brasil deixou de exportar 79,5% de cafés especiais para os Estados Unidos, refletindo não apenas nos elos da cadeia produtiva, mas também no consumidor americano.
Os Estados Unidos sempre usaram a política tarifária como uma ferramenta estratégica, e trago um exemplo: Em 10 de maio de 1893, a Suprema Corte dos Estados Unidos (Supreme Court of the United States) decidiu que o tomate não é uma fruta, mas um legume, sob o argumento de que o produto é amplamente utilizado em pratos quentes e saladas, e sua classificação culinária sobrepôs à botânica. Assim, o agora “legume” passou a ser tarifado como vegetal. A decisão, que ficou conhecida como Nix v. Hedden — baseada no Tariff Act de 1883 — é um exemplo cristalino de como os interesses econômicos definem narrativas e distorcem o óbvio.
A atual contenda tributária entre Estados Unidos e Brasil começou com uma carta aberta, em que o presidente Donald Trump condicionou um acordo para a redução de tarifas — atualmente em 50% — à sua percepção sobre o Judiciário brasileiro no contexto dos processos que envolvem o ex-presidente Bolsonaro. A aparente indiferença de Lula pode ter desequilibrado o jogo, levando Trump, um negociador adverbial por natureza, a mudar o tom.
Há quem critique o fato de que a reunião existiu apenas para agendar outra, mas é praxe que atores de alto escalão assumam, num primeiro momento, o protagonismo político enquanto as bases técnicas da negociação são discutidas por outros. Pesa contra o Brasil o fato de que o principal articulador americano é um proeminente quadro ideológico do Partido Republicano, negociando com figuras mais parcimoniosas do lado brasileiro, como o chanceler Mauro Vieira, o ministro Fernando Haddad e o vice-presidente Geraldo Alckmin.
Outro tópico relevante nas reuniões vindouras deve tratar das sanções aplicadas a autoridades brasileiras, como o ministro Alexandre de Moraes, que hoje amarga os dissabores da Lei Magnitsky, além do cancelamento de vistos de ministros e próceres petistas envolvidos no Programa Mais Médicos, ainda no primeiro mandato de Lula.
Sob a regência dos tresloucados Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, a dupla Trump/Marco Rubio tem pesado a mão — e, curiosamente, é justamente isso que os dois brasileiros em solo americano tentam fazer entender como virtude.
Eduardo, o 03, escolheu um caminho sem volta. Age como Jorge III do Reino Unido — monarca do século XVIII — que, acometido por episódios de instabilidade mental, acreditava-se sofrer de porfíria, uma doença metabólica que provoca manifestações psicossomáticas frequentemente confundidas com loucura.
Eduardo, a exemplo do rei, apresenta nas redes sociais, traços de ansiedade, delírio, confusão mental e alucinações. E, tal como no Reino Unido de dois séculos atrás, há quem nele acredite.
O que se desenha para o futuro a médio prazo são enfadonhas rodadas de negociação, com bons presságios quanto à redução das tarifas. Já em relação à derrubada das sanções, há um velado pessimismo — muito em razão do reflexo que isso traria ao tabuleiro eleitoral. Convém entender: se Jair Bolsonaro se aproveitar de um facho de luz vindo de uma Janela de Overton e decidir se candidatar novamente à Presidência da República, Lula — que, conforme todas as pesquisas, venceria todos os prováveis adversários — pode reencontrar seu velho oponente. Ainda que, por ora, não se vislumbre uma candidatura ao seu quarto mandato, Lula blefa. Mas o blefe pode ser necessário, mais uma vez, para conter a extrema direita – sob o ponto de vista da esquerda, enquanto a realidade política do país não encontra um quadro de equilíbrio entre os dois espectros fundamentalistas.

STF – A CORTE DOS AIATOLÁS BRASILEIROS


Luís Roberto Barroso deixou o Supremo Tribunal Federal, abrindo uma vaga para compor a corte. Momento de refletir sobre a escolha – prerrogativa do Presidente da República, Lula da Silva. Se virá um nome que assuma como agente da autonomia e do equilíbrio institucional, ou mais um símbolo de perpetuação de um sistema obscuro, partidarizado e sem transparência.
O mais cotado a assumir a cadeira vaga na Suprema Corte, é Jorge Messias, para quem não se lembra, é aquele que ficou incumbido de entregar um termo de posse como Ministro da Casa Civil a Lula, enquanto tentava se livrar da prisão, no âmbito da Operação Lava-Jato – em raro momento de lucidez, o Ministro Gilmar Mendes, hoje decano da Corte, impediu a posse, culminando à Lula, o julgamento em primeira instância. Messias era um mero desconhecido, para tantos, um reles contínuo, um executor de serviços gerais ou administrativos simples, como o de portar um documento até o aeroporto.
Messias, ostracizado pela queda da Presidente Dilma e pela prisão de Lula e seus próceres do PT, ressurgiu como Advogado Geral da União e está em vias de ser indicado ao Senado para ser Ministro do Supremo Tribunal Federal, uma ascensão digna de palestra motivacional.
Os Ministros do STF exercem ou deveriam exercer a nobre missão de interpretar a Constituição Federal, mas são mais conhecidos pela centralização do poder, com mandatos longevos, exercem grande influência, se distanciam do povo, pois não são eleitos, e qualquer que seja o poder empenhado, afetam profundamente a sociedade, são blindados, usam o “juridiquês” até fora do tribunal, como forma de inibir o cidadão comum, tomam decisões com forte apelo político, mas a função quase sacerdotal, como intérpretes da Constituição, me leva a uma analogia provocativa, os Ministros do Supremo Tribunal Federal são como os aiatolás, e as semelhanças não são poucas.
Os aiatolás são líderes xiitas de suprema autoridade, especialmente no Irã. Sua escolha não se dá por eleição ou indicação política, mas pelo reconhecimento entre os próprios religiosos. Para se tornar um aiatolá, é requisito fundamental o notório saber islâmico — o clérigo dedica muitos anos de estudo em seminários localizados em cidades sagradas, como Qom, no Irã, e Najaf, no Iraque. Talvez aí resida o ponto em que mais destoam dos nossos ministros do Supremo: apesar da exigência formal de notório saber jurídico, há entre eles quem sequer tenha sido aprovado no exame da OAB. E, dos onze, apenas dois são, de fato, juízes.
Há um grau mais elevado entre os aiatolás: são os chamados Aiatolá al-Uzma, autoridades máximas que servem como exemplo e fonte de emulação — conceito que traduz o impulso de igualar-se ou superar outro, tamanha sua influência política e religiosa. Essa figura me remete, inevitavelmente, ao decano Gilmar Mendes. Um magistrado que não perdoa nem mesmo uma jocosidade em festa junina. Ah, se lhe fosse possível, as chibatadas já teriam estalado nas costas de Sérgio Moro…
Outro fator que aproxima os Ministros da Suprema Corte aos Aiatolás, é o ambiente predominantemente masculino no STF, entre os Aiatolás, o conselho é absolutamente masculino, e faço aqui uma ressalva, se sou o contratante para uma vaga unissex, e tenho de entrevistar nove mulheres e apenas um homem para a vaga, eu contrataria o que melhor correspondesse às necessidades da contratante, independente se o homem foi o contemplado, isso é pragmatismo, e nem de longe é uma defesa a Lula, mas a refutação de uma narrativa barata, isto posto, é de conhecimento da população que há entre nós, mulheres capazes de trajar a toga, mas já conhecemos Lula desde antes de seu primeiro mandato e quais as suas preferências.
O STF carece de uma renovação que vá além de uma troca de favores, há de se resgatar a verdadeira atribuição da corte, como guardiã da Constituição, e se abstrair dos palanques políticos ou de interesses corporativos. A indicação para substituir Barroso deve ser em favor da civilidade, da imparcialidade e da coragem para enfrentar com imparcialidade, as complexas questões do Brasil.
O filósofo Nietzsche, ao criticar o cristianismo, jamais atacou a fé, mas o sistema que a institucionalizou, para ele o sistema que “matou Deus”. Aqui, da mesma forma, não ataco aos aiatolás, aos irmãos muçulmanos, tampouco ao Supremo Tribunal Federal, mas apenas faço uma analogia – com muita responsabilidade, com provocação simbólica à estrutura mística de poder que se consagrou na nossa Suprema Corte. Não teço críticas à toga, mas ao uso que dela se faz; não ao conhecimento, mas ao dogma. Se há algo sagrado, não são os aiatolás do STF — mas a democracia, cuja escritura maior é a Constituição Federal.

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O Tabuleiro da Sucessão e os Desafios do Brasil

Em outubro de 2026, o Brasil viverá mais uma eleição geral, com a disputa presidencial no centro do maior evento político do país. O tabuleiro ainda está indefinido — o jogo eleitoral é dinâmico e responde a fatos novos, sejam espontâneos ou estrategicamente fabricados. As peças se movimentam conforme as contingências dos interesses e dos humores da opinião pública.
Embora os nomes ainda não estejam oficialmente postos, já são ventilados e, surpreendentemente, até defendidos por setores diversos. No campo da direita, muitos dos pré-candidatos acenam com a promessa de indulto a Jair Bolsonaro, como se essa concessão fosse o pedágio obrigatório para conquistar o eleitorado bolsonarista.
Na esquerda, Lula ainda fala em candidatura, mirando um inédito quarto mandato. Mas essa possibilidade soa cada vez menos crível. Os desafios que o próximo presidente encontrará em 2027 — no cenário fiscal, institucional e social — seriam difíceis até mesmo para um governo em ascensão. Lula tenta, ainda, reescrever sua trajetória, marcada por escândalos que o levaram à prisão. E talvez, mais do que um novo mandato, seu foco seja consolidar um legado que resista ao tempo e à história.
Assumir a Presidência do Brasil, a partir de 2027, será muito mais do que vestir a faixa presidencial — será herdar um país polarizado, institucionalmente tensionado e economicamente pressionado por desafios que se acumulam há décadas. A cadeira mais alta da República, outrora símbolo de poder e prestígio, tem se tornado, cada vez mais, um campo minado de expectativas irrealistas, promessas impraticáveis e crises permanentes. Ser presidente do Brasil, talvez seja uma das missões mais ingratas do mundo democrático: o governante é cobrado como estadista, mas frequentemente tratado como alvo; precisa liderar um país continental, mas opera cercado por entraves institucionais, interesses difusos e uma sociedade em ebulição, muitas vezes causados por eles mesmos, enquanto incumbentes.
O cenário econômico que se projeta para o Brasil a partir de 2027 é temerário para a 10ª maior economia do mundo. Com um PIB estimado em crescimento de apenas 1,90% segundo a IFI (Instituição Fiscal Independente) – órgão vinculado ao Senado Federal, e um montante de USD 1,70 trilhão, o país enfrenta desafios severos. A dívida pública, que era de R$ 9,6 trilhões em agosto de 2025, equivalente a 77,5, em 2027, o FMI (Fundo Monetário Internacional) projeta relação com o PIB em 97%; as despesas discricionárias — ou seja, os gastos não obrigatórios previstos na Constituição — também sofrerão um duro golpe. Em 2027, o valor previsto para essas despesas será de R$ 122 bilhões, quantia considerada insuficiente até mesmo para manter a máquina pública em funcionamento. Desse total, cerca de R$ 50 bilhões devem ser destinados ao pagamento de emendas parlamentares. Esse cenário crítico já é reconhecido pelo atual governo, que prevê, para 2029, um orçamento com apenas R$ 8,9 bilhões livres para investimentos. Na prática, isso pode significar falta de recursos até para a manutenção básica de escolas, hospitais e obras públicas, há também problemas tributários crônicos, como o contencioso tributário – a soma de todo os impostos contestados na Receita e/ou na Justiça competente, que está na ordem de R$ 5, 80 trilhões – 77,8% do PIB.
Os números servem não apenas como alerta ao eleitor sobre a importância de escolher um quadro capacitado, mas também revelam o quanto somos grandes como nação — e, na mesma medida, complexos em nossos problemas. A disputa ideológica tem aprofundado o abismo que enfrentamos; a polarização entre direita e esquerda não valeu a pena — e não valerá. Seguimos como cobaias de governos ineptos e perdulários, que nos conduziram, repetidamente, ao caos político e social. Este é, portanto, um momento propício à reflexão sobre os nomes que se apresentam. A seguir, enumero e sintetizo, com a necessária isenção e clareza, para que o eleitor tenha um entendimento mais lúcido da escolha que o aguarda.
No campo da direita, há uma barafunda a ser resolvida. O eleitor mais radical enxerga em Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, o homem que levará adiante a doutrina bolsonarista. Governadores em segundo mandato, com bons registros em seus respectivos estados, também se lançam como opção — como é o caso de Ronaldo Caiado (GO), Ratinho Junior (PR) e Romeu Zema (MG). No entanto, todos os citados são alvo de ataques de Eduardo Bolsonaro, o “03” do ex-presidente Jair Bolsonaro, que também vislumbra o poder e se acredita o verdadeiro herdeiro político do pai. Já há um movimento nítido dentro da direita que aponta Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama, como única figura capaz de arrefecer os ânimos, caso decida se candidatar.

Ainda sobre Tarcísio de Freitas: em seu primeiro mandato, caso opte por disputar a Presidência da República, abrirá um vácuo na sucessão estadual paulista. Ele já é cortejado por Gilberto Kassab, articulador político com grande trânsito nos bastidores nacionais.
Nesse cenário fragmentado da direita, o grande desafio será a construção de uma candidatura que una forças sem provocar novas fraturas. A ausência definitiva de Jair Bolsonaro do pleito — seja por inelegibilidade ou estratégia — torna a figura do “sucessor legítimo” uma disputa simbólica, com potencial para dilacerar ainda mais esse campo. Os ataques de Eduardo Bolsonaro aos potenciais aliados revelam não apenas ambição, mas também a dificuldade do grupo em lidar com divergências internas. Já Michelle Bolsonaro, com forte apelo entre o eleitorado evangélico e conservador, surge como uma espécie de “candidata de síntese”, mas ainda sem experiência administrativa ou articulação política comprovada.
A direita, para manter competitividade, terá que decidir se deseja um candidato palatável ao centro ou alguém que apenas reverbere o discurso bolsonarista puro. Essa escolha pode determinar se continuará sendo uma força majoritária ou se se limitará a uma oposição barulhenta e fragmentada.
Na esquerda, aparentemente em zona de conforto, Lula já ensaia discursos sobre um possível quarto mandato. Conta a seu favor com a estrutura midiática do PT e a força institucional do cargo, em um momento em que, politicamente, pode encerrar o mandato acima do esperado — especialmente com as reuniões previstas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No entanto, pesa contra ele a idade, e, mais do que isso, o desgaste acumulado por anos tentando maquiar os escândalos de corrupção de seus governos anteriores, que voltariam a ser julgados, agora não só pela Justiça, mas por um eleitorado cada vez mais cético, diante dos números catastróficos que os antigos mandatários deixaram como herança.
Nesse tabuleiro político, cada movimento parece menos fruto de estratégia e mais de impulsos – ora movidos por vaidade, ora por ressentimento. O país, nesse compasso, não vê um projeto de nação, mas sim projetos de poder. A sucessão de 2026 será, provavelmente, a mais fragmentada dos últimos tempos, e ao contrário do que seria desejável, não por pluralidade de ideias, mas por pulverização de vaidades. Os nomes surgem, mas poucos se sustentam fora das redes sociais. Há quem pense que basta lacrar, berrar ou rezar para governar o Brasil — um erro crasso em um país que exige seriedade, técnica e articulação. E diante desse cenário, o eleitor, cansado, se vê como o único a jogar com honestidade, em um tabuleiro viciado.
No centro da disputa está Eduardo Leite, governador bem avaliado do Rio Grande do Sul, que, por óbvio, não representa uma “terceira via”, mas sim uma alternativa às candidaturas viciadas. 
Estamos a um ano de eleições que prometem ser das mais hostis, em que o “nós contra eles” pode novamente ditar o ritmo. 
Aos eleitores, ciosos por um Brasil melhor, deixo o pensamento do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade: 


Uma eleição é feita para corrigir o erro da eleição anterior, mesmo que o agrave“.

Em meio ao embate acirrado, o maior poder está na consciência do eleitor — que pode transformar o jogo com seu voto.

NACIONALISMO REATIVO: O JOGO QUE NINGUÉM QUER PERDER

Diante do tarifaço imposto por Donald Trump e das provocações orquestradas por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo — que atacam o Judiciário brasileiro em território estrangeiro —, emerge um cenário típico do Nacionalismo Reativo: a defesa da soberania nacional como reflexo da humilhação percebida.

Nesse contexto, o sentimento patriótico não nasce de orgulho pleno, mas da sensação de humilhação externa e da necessidade de reafirmar a soberania nacional. A retórica agressiva vinda de fora, quando internalizada, provoca uma resposta emocional e política que tende a blindar o governo contra críticas internas e a reforçar a coesão nacional — mesmo que momentaneamente.

É o Estado-nação tentando se afirmar, não por vontade autônoma, mas em reação à ameaça externa e ao constrangimento internacional. Assim, sem grande esforço, o presidente Lula passa a se beneficiar desse movimento involuntário, com respaldo institucional e popular, em nome da defesa da pátria e das instituições.
Essa movimentação externa, que mira o Brasil como submisso ou desorganizado, ativa internamente um sentimento coletivo de proteção institucional. E, paradoxalmente, coloca Lula — um presidente desgastado – como símbolo da unidade nacional diante do “inimigo de fora”,  mas, exagerando no uso de jargões do futebol, tão comumente utilizado nos temas políticos, Lula jogou parado e hoje dá seus primeiros passes em direção aos seus pontas de lança da Diplomacia e da Fazenda em território americano.
Esse movimento tem implicações diretas na polarização política. Ao reagrupar em torno do governo parte do eleitorado mais moderado, o gap de aproximadamente 40% da população que rejeita tanto Lula quanto Bolsonaro começa a se mover — ainda que discretamente — em direção a quem oferece estabilidade diante do caos retórico e da ameaça externa.
As últimas pesquisas qualitativas já apresentam estas nuances: crescimento da falsa percepção de Lula como “estadista” frente ao cenário internacional e leve desgaste no campo da oposição, que passa a ser vista por alguns como inconsequente ou subversiva. Assim, o que parecia um revés comercial e diplomático, pode se tornar um elemento de coesão, interna, ainda que efêmera, e reposicionamento político, sobretudo se o governo souber capitalizar o momento sem exagerar na retórica nacionalista.
E num desses gestos que misturam sarcasmo e cálculo político, Lula teria se referido a Eduardo Bolsonaro como “seu camisa 10” — uma fala que, para além da ironia, revela o quanto a oposição, às vezes, joga contra si própria… e a favor de quem está no poder.
Além disso, não se pode ignorar os rumores de saídas de Ministros do Supremo Tribunal Federal, após Luís Roberto Barroso puxar a fila, diante das pressões e sanções políticas em curso, o que proporcionaria ao atual mandatário, indicar mais “jogadores”, digo Ministros da Suprema Corte, que estejam ainda mais alinhados com seu perpétuo projeto de poder.
Até que ponto essa instabilidade no Judiciário influenciará o cenário político nacional e a segurança das instituições democráticas? 
Quem está realmente marcando gol: o governo… ou seus adversários?
Quem realmente está jogando em qual time?

Cessar-Fogo ou Rendição Moral? A Difícil Equação Entre Reféns, Terror e Estado


O recente acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas, embora necessário para interromper o derramamento de sangue, não é comemorado como uma vitória, aliás, quando as guerras acabam, todos comemoram – na verdade, o fim de um conflito duradouro, de incontáveis barbáries e perda da dignidade entre os povos – em que as duas partes do conflito vislumbram tempos de paz.

Sou contrário a qualquer negociação com grupos terroristas, e essa ressalva se faz mais urgente diante do desequilíbrio flagrante presente nesse pacto: enquanto Israel concorda em libertar quase dois mil prisioneiros palestinos, muitos deles com histórico de envolvimento em atentados, outros tantos, condenados à prisão perpétua, o Hamas se compromete apenas a liberar os últimos 20 reféns israelenses, além de cadáveres.

O acordo, além de refratário a qualquer senso de justiça, carrega em si o peso de uma urgência política particular. Donald Trump, enfrentando rejeição crescente nos Estados Unidos, e Benjamin Netanyahu, alvo de críticas internas e protestos em Israel, encontram no cessar-fogo uma oportunidade de recuperar fôlego político. Essa conjuntura torna o pacto açodado, desequilibrado e distante da proporcionalidade necessária para um processo de paz absoluta.
Trocar centenas — ou milhares — de prisioneiros por algumas dezenas de reféns não é apenas um desequilíbrio logístico, é um sintoma de desespero político, um indicativo de que interesses eleitorais e pessoais se sobrepõem ao interesse nacional e à busca por justiça.
É inconcebível imaginar que o serviço de inteligência de Israel não tenha conseguido eliminar o Hamas ao longo dos dois anos de guerra na Faixa de Gaza, mesmo com incursões pontuais em países da região. O Mossad, outrora admirado por sua excelência — ainda que, por vezes, violasse a soberania de outras nações — desta vez se mostrou ineficaz, refletindo a inércia do combalido Benjamin Netanyahu. Recordo aqui a célebre captura de Adolf Eichmann, realizada na Argentina nos anos 1960, quando Israel, sem qualquer formalidade diplomática, prendeu um dos principais responsáveis pelo Holocausto em território estrangeiro
Por fim, é importante destacar que a criação do Estado da Palestina é uma causa legítima e necessária para a estabilidade regional, mas jamais deve ser confundida com a legitimação de grupos terroristas como o Hamas. Defender o reconhecimento do Estado palestino não significa apoiar seus métodos, mas sim buscar um caminho justo, que respeite os direitos humanos, a segurança de todos e o direito à autodeterminação dos povos.

O PACTO


Entre abraços públicos e alianças silenciosas, o ex-presidente Jair Bolsonaro revive o mito de Fausto: um pacto por vantagens imediatas que cobra um preço inegociável. O Judiciário assume o papel de julgador e fiador do destino de um líder político que tentou subverter o próprio sistema com seus instrumentos.

Em 2019, Jair Bolsonaro, recém-eleito com um forte discurso contra o “sistema”, surpreendeu ao selar um acordo político com o então presidente do STF, Dias Toffoli – simbolizado por um abraço público. 
Logo no início do mandato, manchetes sobre um esquema robusto de rachadinhas no gabinete do filho Flávio Bolsonaro se multiplicavam. Para proteger o primogênito, o presidente aceitou um pacto com o Supremo Tribunal Federal, então sob comando de Toffoli — um acordo que remete, simbolicamente, ao pacto entre Fausto e Mefistófeles, na clássica obra de Goethe: uma aliança que oferece vantagens imediatas, mas cobra um preço alto no futuro.
Na obra, Fausto, um idoso erudito insatisfeito com os limites do conhecimento humano, firma com Mefistófeles o compromisso de entregar sua alma após a morte, desde que seus desejos — juventude, energia e sabedoria — fossem atendidos. Embora agraciado, Fausto é perseguido por tragédias, refletindo o custo oculto de seu acordo.
Dias Toffoli e Mefistófeles têm mais em comum do que a simples semelhança fonética de seus nomes. Ambos oferecem favores com uma mão e, com a outra, retiram o que concederam. 
Toffoli, ao selar o pacto com Bolsonaro, mobilizou a estrutura do Judiciário e sua legião de arautos dissimulados — Aras, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Barroso, entre outros — que, juntos, fizeram do ex-presidente um pária no sistema político que ele jurava combater. Bolsonaro fez um pacto com o diabo — e afundou na lama putrefata do mesmo sistema que prometera expurgar.
Na política, pactos têm consequências. E, como na obra de Goethe, ao firmar acordos com “forças superiores”, a cobrança sempre chega — com juros e correção.
O Supremo Tribunal Federal opera sob uma liderança rotativa. Outros “anjos caídos” herdam os contratos firmados. Hoje, sob a batuta do ministro Luís Roberto Barroso, a decadência de Bolsonaro se agrava, com a atuação implacável de Alexandre de Moraes — cuja autoridade inflexível parece arrematar o que pode ser a última linha de uma trajetória política marcada por rupturas, contradições e acordos sombrios.
O pacto entre Jair Bolsonaro e o sistema judicial — personificado em Dias Toffoli, no Supremo Tribunal Federal e nas engrenagens do Judiciário — só diverge do enredo de Fausto, de Goethe, em seu desfecho. No clássico, Fausto é salvo, ao fim, por anjos. Já no drama político brasileiro, os supostos “anjos” que hoje acenam a Bolsonaro com promessas de redenção possuem biografias profundamente comprometidas dentro do mesmo sistema que o ex-presidente diz combater.
Entre eles, Michel Temer — ex-presidente da República, acusado de corrupção e alvo de investigações da Operação Lava Jato — e Aécio Neves, derrotado pelo PT em 2014 e igualmente citado nas delações da mesma operação. Ambos, sob o pretexto de pacificação nacional, articulam uma proposta alternativa à anistia: a chamada “PEC da Dosimetria”, que visa atenuar as penas dos condenados por tentativa de golpe e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. No entanto, essa manobra não representa perdão, nem absolvição, tampouco a recuperação dos direitos políticos de Bolsonaro.
Nos capítulos mais recentes dessa aliança obscura, um novo personagem desponta: Eduardo Bolsonaro, filho tido como símbolo da ala ideológica da família. Apontado como o mais inteligente e articulado, recusa-se a enfrentar diretamente os efeitos do pacto. Preferindo o exílio ideológico, esconde-se atrás da bandeira norte-americana e, à distância, lança ataques verbais contra aqueles mesmos atores com quem seu pai firmou, no passado, o acordo que hoje o imola politicamente.
As manifestações promovidas pela esquerda no dia 21 de setembro em todo o país reforçaram um cenário já delineado: a polarização política brasileira atingiu seu ponto mais agudo. Os números de participantes espelham os registrados em atos da direita, indicando que o embate segue equilibrado — e que os desdobramentos futuros dificilmente trarão estabilidade ou vantagem definitiva a qualquer dos lados.
Eduardo Bolsonaro refugiou-se politicamente nos Estados Unidos, valendo-se da rivalidade entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva — intensificada pelos recentes movimentos do Brasil no âmbito do BRICS — para impulsionar uma ofensiva diplomática contra o governo brasileiro. Tem pleiteado a revogação de vistos, a imposição de tarifas e até a aplicação da famigerada Lei Magnitsky: um dispositivo que estabelece sanções severas contra indivíduos envolvidos em corrupção, violações de direitos humanos e crimes internacionais. Por mais inconcebível que pareça, Eduardo tem obtido êxito em algumas dessas frentes. Contudo, esse sucesso isolado não se traduz em salvação para Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão, inelegível e com saúde debilitada.

Na política, não se deve vaticinar a morte de um ator relevante. Luiz Inácio Lula da Silva, outrora considerado um cadáver político durante sua prisão, foi ressuscitado pelo próprio sistema. Aécio Neves, silenciado e amocambado nos últimos anos, hoje ressurge como voz de conciliação. Agora, é a vez de Jair Messias Bolsonaro, fadado ao ostracismo, sob o eco da voz endemoniada de Mefistófeles, que parece zombar de seu destino:

“Não és mais, meu senhor, do que és: um mortal! 
Perucas podes ter, com louros aos milhões. 
Alçar-te com teus pés nos mais altos tacões, 
Serás sempre o que és: um pobre ser mortal!”
— Johann Wolfgang von Goethe