As Meninas de Teerã


“Nenhuma opressão é eterna; a aurora virá, mesmo depois da noite mais longa.”
Firdawsi – poeta persa

A relação entre política e religião forma uma simbiose parasitária, em que um organismo se beneficia do outro sem, no entanto, ameaçar seu hospedeiro, sob o risco de autodestruição. Quando a religião é imposta em um sistema supranacional, dá-se origem ao que se convencionou chamar de teocracia, termo derivado do grego theós (deus) e kratos (poder ou governo), denotando o domínio absoluto da religião sobre o povo. Exemplos desse modelo abundam e remontam aos primórdios da civilização.
Entre as religiões abraâmicas (monoteístas que reconhecem Abraão como patriarca – Cristianismo, Islamismo e Judaísmo), o Islã foi historicamente a mais expansionista, travando inúmeras batalhas em nome da fé para disseminar suas escrituras. O Cristianismo, em certa medida, também difundiu seus mandamentos, especialmente nos diversos períodos coloniais. Já o Judaísmo, por sua vez,  embora sustente ser a verdadeira religião de Deus, não realiza proselitismo ativo. Ainda assim, admite novos adeptos, que são acolhidos como enxertados. Em termos mais coloquiais, poderíamos dizer que são aliados alinhados à fé do povo de Israel.
Na antiga Pérsia, hoje Irã, surgiu o Zoroastrismo, religião monoteísta difundida pelo profeta Zaratustra. Seu Senhor supremo é Ahura Mazda, o “Senhor da Sabedoria”. Trata-se de uma fé que sintetiza o maniqueísmo, centrada na luta entre o bem e o mal, preservando os conceitos de céu, inferno e juízo final. O Zoroastrismo teria influenciado o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo.
No século VII, em uma invulgar incursão islâmica na região, o Islã desafiou a religião predominante na época e se impôs sobre o território, onde se desenvolveu por séculos sem institucionalização formal até 1979.
Naquele ano, o Irã ainda era uma monarquia, sob a égide do Xá Mohammad Reza Pahlavi, criticado por violar leis religiosas e por seu alinhamento com o mundo ocidental. A Revolução Islâmica forçou o Xá a fugir do país, propiciando o retorno do aiatolá Ruhollah Khomeini, que assumiu o poder em 11 de fevereiro daquele ano.
Até 1979, o Irã era uma Monarquia Autocrática Constitucional. O xá exercia um poder centralizador, utilizando-se de sua polícia secreta (SAVAK) para reprimir a oposição. Havia, no entanto, um modelo constitucional minimamente consistente, e o Islã já era, há muito, a religião predominante, ainda que a resistência do Xá tenha sido inócua.
A partir de então, estabeleceu-se no governo iraniano a sharia, sistema de leis islâmicas que orienta os fiéis em todos os aspectos da vida. Como símbolo maior dessa guinada teocrática, destacou-se a apropriação dos direitos das mulheres, o que se tornou evidente aos olhos do Ocidente: mulheres que antes se vestiam como desejavam, em trajes ocidentais ou tradicionais, passaram a ser obrigadas a cobrir a cabeça com o hijab, sob pena de admoestação pública e hostil pela recém-criada Polícia da Moralidade.
Para além das questões religiosas, o Irã foi se encorpando como uma potência militar, inclinado às guerras e intromissões, se desfez de antigas alianças e se firmou como importante ator político na região, com robusto programa nuclear, agora com alianças mais periféricas, embora de grande repercussão geopolítica, o Irã passou a ser respeitado, mas por medo, o mesmo medo que assolou seu povo por longos 47 anos.
O Irã é um caldeirão de problemas e ingredientes para uma porção generosa de instabilidade que não lhe faltam. Mas, como estopim para a revolução retumbante que marca este início de ano, a população aponta o colapso econômico, tendo como lastro uma inflação que ultrapassa os 50%.
O fato, no entanto, é claro para todos: o país, representado com coragem por sua juventude, sobretudo a feminina, resolveu agir com as próprias forças. Trata-se de um levante sem precedentes, onde já se vislumbra a queda do poder teocrático. As meninas de Teerã estão decepando o Leviatã.
A resposta do regime assombra. Os números de mortos são incertos, não há registros oficiais, nem comunicação formal. A internet foi cortada. O país vive isolado, sem acesso pleno ao mundo exterior. Ainda assim, pouco a pouco, a bravura de um povo sofrido começa a emergir diante dos olhos do mundo.
Pessoas solidárias ao redor do mundo pedem uma intervenção norte-americana, sem considerar que o Irã mantém alianças estratégicas com China e Rússia, potências que reivindicam protagonismo em suas respectivas regiões. Tudo isso em um momento em que Trump, atual mandatário dos Estados Unidos, reafirma sua influência sobre as Américas.
Uma intervenção militar dos EUA no Irã seria a primeira grande interação intra-guerra no século XXI, e poderia desencadear os desdobramentos de uma Terceira Guerra Mundial.
No Irã, o pior problema é sempre o próximo. Nada sugere otimismo em relação à escalada das tensões. Um dos cenários mais temidos é o de uma guerra civil prolongada, colocando o mundo em alerta diante da morte de inocentes, do endurecimento da repressão e da formação de novas diásporas, em contradição com a ideia de um mundo civilizado, abrindo espaço para a estupidez das guerras.
No coração do Oriente, a opressão ergue muros e calam sonhos, mas nasce uma revolução produzida por mãos jovens, sobretudo femininas.
São as meninas de Teerã, agora, com os cabelos ao vento, que enfrentam com galhardia, ao seu opressor com a coragem digna do povo persa; sem armas, mas com danças e desobediência, fazem tremer os alicerces de um regime que se julgava eterno.
A elas, nossa admiração e nossa voz. Que o mundo não se faça de surdo, que a liberdade que sussurra nas ruas do Irã ecoe alto em todos os cantos.

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