
A polarização que permeia o ambiente político brasileiro assume contornos de uma novela. Há os atores que protagonizam a trama – desde os militantes de base até os quadros políticos de maior relevo – e a história parece se encaminhar para um desfecho, mas sempre nos surpreende com novas cenas fortes, pitorescas e melodramáticas.
Em um ano que antecede novas eleições, essa polarização se intensifica nas entranhas do poder. Os embates tornam-se mais evidentes e aguçam nossa inteligência, desafiando-nos a prever os desfechos dos diversos núcleos que compõem essa dicotomia exacerbada em que vivemos.
No dia 10 de dezembro de 2025, foi votada no plenário da Câmara dos Deputados a cassação do mandato do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ). O desfecho parecia certo: não havia quem acreditasse em resultado diferente da perda do mandato, devido à agressão a um popular nos domínios da Casa Parlamentar, a Casa do Povo. Contudo, para surpresa de muitos, Glauber Braga foi penalizado apenas com a suspensão do mandato por 180 dias.
No dia seguinte, votou-se a cassação do mandato da deputada Carla Zambelli (PL-SP), um episódio controverso. Zambelli, que está foragida e presa na Itália, possui condenação transitada em julgado e, conforme o artigo XV da Constituição Federal, tem seus direitos políticos suspensos, o que a impede de exercer cargos públicos e até mesmo de votar.
Portanto, o STF, por meio do Ministro Alexandre de Moraes, encaminhou para a Mesa Diretora da Câmara a homologação da perda do mandato, um ato protocolar que foi desafiado pelo presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (REP-PB), evidenciando um suposto acordo entre parlamentares da direita à esquerda.
Na política não existe traição; todos os envolvidos sabem, ou ao menos deveriam saber, que cada movimento deve ser cuidadosamente avaliado, o que não ocorreu entre os setores majoritários da direita, atualmente na oposição. Diante disso, o Ministro Alexandre de Moraes determinou a suspensão do mandato de Zambelli até o término dos efeitos da condenação, em obediência ao artigo constitucional citado. Essa sequência de atos pode ser interpretada como um reposicionamento institucional, refletindo o ambiente político-judicial desfavorável à direita bolsonarista.
Agora, estamos às voltas com um acordo declarado por próceres do Governo Federal em torno do Projeto de Lei da Dosimetria. Embora o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tenha negado qualquer tratativa, o projeto chegou ao Senado sob desconfiança e foi alvo de diversas manifestações contrárias, ainda assim, passou com folga. Lula prometeu vetar. Se o fizer, o roteiro estará traçado: o PL retorna ao Congresso Nacional, que deverá derrubar o veto. Ato contínuo, volta ao Executivo, que, mesmo sem sancioná-lo, o verá tornar-se lei após 15 dias, conforme determina a Constituição. Mas… é quase certo que será judicializado. E então o suspense retorna à cena: como reagirá o Supremo Tribunal Federal? Estaremos diante de mais um ato de sagacidade da esquerda? Ou o STF dará novo rumo ao enredo? O tempo dirá… e como tem dito!
O jogo político revela mais do que acordos, expõe o espírito de um tempo em que as instituições, pressionadas por extremos, operam no limite de suas interpretações e atribuições. O zeitgeist brasileiro, neste fim de 2025, é de tensão institucional, insegurança jurídica e disputas desnecessárias. Tudo parece orbitado por uma polarização que molda as decisões e antecipa conflitos. Entender esse espírito do tempo é essencial para não apenas prever os próximos capítulos, mas para compreendê-los com a profundidade que o momento exige.
O tempo é de reflexão, abdicar de estratégias desastrosas e acordos débeis pode ser o melhor caminho para um final feliz de uma novela enfadonha, mas que teima em não acabar.
A direita, ora fragilizada, faz acordos cujos termos não compreende por inteiro. A esquerda, por sua vez, atua como quem conhece o roteiro, e até escreve as próximos cenas. O palco político está montado, os protagonistas encenam, mas é nos bastidores que se decide o rumo da peça. O resultado? A cada embate, um avanço calculado, uma derrota silenciosa.
Nada disso é obra do acaso. É a manifestação clara do espírito do nosso tempo, o zeitgeist, que se revela em cada movimentação institucional, em cada veto, em cada lei judicializada. Nos dias atuais, a política se tornou mais simbólica do que prática, muito se discute, pouco se faz. A atmosfera política está tensionada, e o jogo não se encerra no voto ou no acordo, mas no imaginário coletivo, e compreender esse tempo é mais do que observar a cena: é interpretar o cenário com lucidez. E talvez, aí sim, ensaiar uma nova história.