ATÉ O LADRÃO TEM PERDÃO, MAS O BURRO…


“Errar é humano. Ser apanhado em flagrante é burrice”.
Millôr Fernandes


O Brasil ganhou uma nova tradição com a agudização da dicotomia que permeia o comando da nação: a de ex-presidentes condenados e presos. O retrato atual é o de dois burros arrastando o país por caminhos opostos, mas igualmente funestos. Um veste a carapaça do político espertalhão; o outro exibe uma obtusidade flagrante. Enquanto o primeiro avança com estultícia, o segundo se torna escravo de suas próprias logorreias. A história que empaca o Brasil encontra paralelo na Fábula dos Dois Burros, como relato abaixo:
Dois burros viajavam juntos. Um levava sacas de açúcar e o outro, fardos de esponjas. O primeiro, mais cauteloso, alertou o companheiro sobre os perigos da estrada e a necessidade de caminhar com cuidado. O segundo, jactou-se de sua esperteza em simplesmente seguir os rastros dos outros animais que haviam passado por ali.
Mais adiante, eles chegaram a um rio cuja ponte havia desabado. O burro com açúcar entrou na correnteza e, à medida que avançava, sua carga se dissolvia na água, tornando-se mais leve e permitindo que ele chegasse à outra margem sem grandes dificuldades.
Observando o “sucesso” do primeiro, o burro das esponjas, confiante em sua estratégia de imitação, lançou-se imediatamente ao rio. Contudo, em vez de sua carga diminuir, as esponjas absorveram a água, tornando-se extremamente pesadas. O burro, incapaz de suportar o peso extra, afundou e foi levado pela correnteza.
Lula foi condenado a doze anos de prisão por corrupção – uma condenação amparada por provas robustas – embora jure, até hoje, inocência. Cumpriu apenas 580 dias no cárcere e de lá saiu triunfante, rumo a uma nova investida ao Palácio do Planalto, de onde agora dita as regras de um governo pusilânime e perdulário. O atual Presidente da República valeu-se de uma estratégia política certeira: não afrontou o sistema, mas elegeu como vilão seu algoz, o ex-juiz e hoje senador Sergio Moro – justamente quem desbaratou a quadrilha petista. Aliou-se aos morubixabas do Judiciário e a jornalistas enviesados. E agora, de volta à cena do crime, assiste de camarote à derrocada de outro condenado, este mais afeito ao confronto, fiando-se em seus próprios tentáculos – os filhos trapalhões.
Jair Messias Bolsonaro foi eleito Presidente da República em 2018, trazendo a tiracolo a esperança de 57 milhões de brasileiros exaustos dos anos de corrupção. Com um discurso raso, porém firme, apresentava-se – ainda que involuntariamente como o novo Barão do Rio Branco, o diplomata que consolidou as fronteiras brasileiras – notável por seu patriotismo exacerbado.
Como um pai cioso, no ímpeto de proteger o filho primogênito – Flávio Bolsonaro da acusação de peculato, cedeu aos encantos de um asno arrependido da Suprema Corte, e estendeu-lhe a mão – um gesto simbólico que selou um pacto silencioso e escravizou o então Presidente. Transformou-se, assim, em um bode na sala da República. Era preciso, afinal, retornar à normalidade perversa de um Estado corrompido até as entranhas.
Agora, Jair Bolsonaro está preso preventivamente por outro inquérito, ainda em prisão domiciliar, viu seu fiho conclamar uma manifestação aparentemente religiosa no entorno de sua casa – vale lembrar que até hoje se cobra do Ministro Alexandre de Moraes explicações sobre “as velhinhas com Bíblias nas mãos”, supostamente presentes nos atos de 8 de janeiro e que, ainda assim, foram julgadas e condenadas.
O roteiro parecia traçado, e concomitantemente, Bolsonaro violou o adereço eletrônico, o que forçou uma medida mais enérgica do Ministro, caso contrário, poderia ser acusado de prevaricador.
Pode ser que, enquanto você, caro leitor, esteja lendo estas linhas, o acórdão já tenha sido divulgado e o ex-Presidente já esteja cumprindo sua pena. Mesmo que não, que este período na prisão lhe sirva de reflexão, que sua consciência lhe faça ouvir o chamado da racionalidade. A grita pelo poder a qualquer custo lhe oferece dias de cárcere. Queira ou não, Bolsonaro é um líder proeminente da direita brasileira – a mesma direita que, desde a redemocratização, não deu certo por falta de articulação. O entorno do ex-Presidente precisa se posicionar com falas moderadas, com respeito, e entender que o jogo político é estratégico, como qualquer jogo de equipe: não basta arregimentar um rebanho, não dá para apostar sem calcular os riscos. Aliás, se a insistência pelo jogo de azar persistir, que ao menos, na próxima eleição o burro não seja o sorteado.

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