RIO MANCHADO DE SANGUE

A polarização política que vivenciamos hoje fatalmente produzirá frutos insalubres nos próximos anos, caso não haja um esforço conjunto para extirpá-la. O exemplo mais recente vem do Rio de Janeiro, que voltou às manchetes internacionais após a desastrosa Operação Contenção, que resultou na morte de mais de 120 pessoas no Complexo do Alemão e na Penha. Entre os mortos, estão quatro policiais; os demais, em sua maioria, eram ligados ao tráfico de drogas, atuantes no Comando Vermelho, outros 113, foram presos.
Nos anos 1960, Carlos Lacerda, à frente do então Estado da Guanabara, decidiu “limpar” a cidade, removendo moradores dos morros do Rio de Janeiro para a recém-criada Cidade de Deus. A proposta vinha acompanhada de promessas de infraestrutura, escolas para as crianças e um comércio autossuficiente, independente das zonas centrais e nobres da cidade. O objetivo era claro: esconder a população desfavorecida e preservar os pontos turísticos. Embora a retirada dos moradores tenha sido compulsória, não havia um regime que os obrigassem a permanecer na Cidade de Deus, o que levou a sucessivos retornos às favelas — num movimento cíclico de idas e vindas que persiste até hoje.
Em 1983, Leonel de Moura Brizola/PDT, assumiu o Governo do Rio de Janeiro e, logo no início de seu mandato, se contrapôs à política habitacional de Carlos Lacerda, e a classificava como excludente. Embora não tenha autorizado oficialmente o retorno às favelas, Brizola fez vistas grossas a quem regressava, numa tentativa — segundo sua visão de esquerda — de corrigir o que considerava uma política de higienização social. Essa guerra urbana escancara o povo como elo mais frágil, especialmente quando submetido a disputas ideológicas extremas, como as que testemunhamos nos dias atuais.
Os morros do Rio — que oferecem algumas das vistas mais privilegiadas da Cidade Maravilhosa — se tornaram, ao longo do tempo, ambientes hostis e marcados pela ausência do Estado. Esse vácuo de governança favoreceu o surgimento de grupos criminosos, como o Comando Vermelho (CV), que emergiu na década de 1970 dentro do sistema penitenciário da Ilha Grande. Nascido da convivência entre presos comuns e militantes políticos, o CV misturou ideologia e crime organizado, estabelecendo códigos próprios, impondo controle territorial, captando armas de grosso calibre e espalhando o terror entre os moradores das comunidades.
O Comando Vermelho se expandiu para territórios do Norte e Nordeste do país, onde novas lideranças floresceram. Paralelamente, surgiram dissidências — como o Terceiro Comando e o ADA (Amigos dos Amigos) — consolidando a facção como uma das mais temidas organizações criminosas do Brasil.
No mesmo período, surgiram também as milícias, compostas majoritariamente por ex-policiais, agentes da ativa e criminosos infiltrados no sistema. Ao contrário dos traficantes, que dominam os morros, as milícias se estabeleceram nas áreas planas, as chamadas “bases”, e operam até hoje com uma farta cesta de produtos clandestinos: TV a cabo, internet, gás, luz elétrica e cobrança de pedágio de comerciantes locais.
O Rio de Janeiro vive uma guerra particular, que já não se restringe aos morros. Trata-se de um conflito nacionalizado, onde tráfico e milícias armadas disputam, palmo a palmo, territórios, mercados e influência política.
Recentemente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou categoricamente que a missão em curso no Caribe é “matar traficantes” que enviam drogas para seu país. A retórica, populista e belicosa, soou como um comando no espectro da direita, da qual ele é expoente. Embora a tradição política americana siga sua própria cartilha — centrada na disputa entre republicanos e democratas —, a declaração funcionou como uma autorização para matar.
Desde o início da operação no Complexo do Alemão, multiplicaram-se os discursos de que “bandido bom é bandido morto” ou que o governador Cláudio Castro teria feito uma “faxina”. No entanto, convém lembrar que a pena de morte não existe no ordenamento jurídico brasileiro. E é apenas por essa razão — a ausência legal de tal penalidade — que não classifico a operação como um fracasso, mas um desastre: há, infelizmente, uma base social que legitima a execução sumária como política pública,
No Brasil, esse discurso é recorrente e não faltam precedentes. O massacre do Carandiru, em 1992, ceifou a vida de 111 detentos; e a chacina da Candelária, em 1993, exterminou oito  jovens em situação de rua — este sim, exemplo explícito de higienização social.
O Rio de Janeiro continua lindo — mas chora, e continuará chorando seus mortos diante de um ciclo de violência, retórica de guerra e, sobretudo, a ausência de uma política pública consistente voltada para a educação como ferramenta de reconstrução social. Não se vislumbra solução no curto ou médio prazo; a repressão apenas alimenta a barbárie.
Sem investimento seguro, transparente e continuado em educação básica, cultura, saúde e oportunidades de mobilidade social, o Rio seguirá como uma vitrine turística cercada por desmandos. Enquanto o fuzil for mais acessível que um livro, jovens continuarão sendo enterrados em valas comuns, numa das cidades mais belas do planeta.

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