
O encontro entre Lula e Trump foi minuciosamente encenado, com invulgar semelhança às negociações entre um sindicalista pitoresco e um empresário rancoroso: pareciam não querer estar ali, mas ambos queriam sair bem na foto — como se diz no meio político, ‘o retrato que o povo precisa’. Para isso, uma verdadeira mise-en-scène foi montada, permitindo que entoassem discursos aparentemente respeitosos. A militância, enfadada e dividida, se precipitou em interpretar os gestos e posturas dos dois atores, tentando extrair alguma mensagem oculta. E, para surpresa de absolutamente ninguém, ambos se saíram muito bem no papel. Lula, como de costume, repetiu a cantilena de que foi vítima de um processo sem direito ao contraditório — uma mentira convenientemente sustentada pelo conforto da memória seletiva. Foram centenas de recursos, dezenas de manifestações, ampla defesa assegurada em todas as instâncias, enquanto Trump… fingia acreditar!
Noves fora a concisa análise díade acima, o que ocorreu, foi uma reunião em ambiente neutro para tratar de desacordo comercial entre duas nações soberanas, a tarifa de 40% excedente, que até aqui pouco incomodou o Presidente Lula, embora setores do agronegócio tenham sentido o baque – só para se ter uma ideia do impacto, o Brasil deixou de exportar 79,5% de cafés especiais para os Estados Unidos, refletindo não apenas nos elos da cadeia produtiva, mas também no consumidor americano.
Os Estados Unidos sempre usaram a política tarifária como uma ferramenta estratégica, e trago um exemplo: Em 10 de maio de 1893, a Suprema Corte dos Estados Unidos (Supreme Court of the United States) decidiu que o tomate não é uma fruta, mas um legume, sob o argumento de que o produto é amplamente utilizado em pratos quentes e saladas, e sua classificação culinária sobrepôs à botânica. Assim, o agora “legume” passou a ser tarifado como vegetal. A decisão, que ficou conhecida como Nix v. Hedden — baseada no Tariff Act de 1883 — é um exemplo cristalino de como os interesses econômicos definem narrativas e distorcem o óbvio.
A atual contenda tributária entre Estados Unidos e Brasil começou com uma carta aberta, em que o presidente Donald Trump condicionou um acordo para a redução de tarifas — atualmente em 50% — à sua percepção sobre o Judiciário brasileiro no contexto dos processos que envolvem o ex-presidente Bolsonaro. A aparente indiferença de Lula pode ter desequilibrado o jogo, levando Trump, um negociador adverbial por natureza, a mudar o tom.
Há quem critique o fato de que a reunião existiu apenas para agendar outra, mas é praxe que atores de alto escalão assumam, num primeiro momento, o protagonismo político enquanto as bases técnicas da negociação são discutidas por outros. Pesa contra o Brasil o fato de que o principal articulador americano é um proeminente quadro ideológico do Partido Republicano, negociando com figuras mais parcimoniosas do lado brasileiro, como o chanceler Mauro Vieira, o ministro Fernando Haddad e o vice-presidente Geraldo Alckmin.
Outro tópico relevante nas reuniões vindouras deve tratar das sanções aplicadas a autoridades brasileiras, como o ministro Alexandre de Moraes, que hoje amarga os dissabores da Lei Magnitsky, além do cancelamento de vistos de ministros e próceres petistas envolvidos no Programa Mais Médicos, ainda no primeiro mandato de Lula.
Sob a regência dos tresloucados Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, a dupla Trump/Marco Rubio tem pesado a mão — e, curiosamente, é justamente isso que os dois brasileiros em solo americano tentam fazer entender como virtude.
Eduardo, o 03, escolheu um caminho sem volta. Age como Jorge III do Reino Unido — monarca do século XVIII — que, acometido por episódios de instabilidade mental, acreditava-se sofrer de porfíria, uma doença metabólica que provoca manifestações psicossomáticas frequentemente confundidas com loucura.
Eduardo, a exemplo do rei, apresenta nas redes sociais, traços de ansiedade, delírio, confusão mental e alucinações. E, tal como no Reino Unido de dois séculos atrás, há quem nele acredite.
O que se desenha para o futuro a médio prazo são enfadonhas rodadas de negociação, com bons presságios quanto à redução das tarifas. Já em relação à derrubada das sanções, há um velado pessimismo — muito em razão do reflexo que isso traria ao tabuleiro eleitoral. Convém entender: se Jair Bolsonaro se aproveitar de um facho de luz vindo de uma Janela de Overton e decidir se candidatar novamente à Presidência da República, Lula — que, conforme todas as pesquisas, venceria todos os prováveis adversários — pode reencontrar seu velho oponente. Ainda que, por ora, não se vislumbre uma candidatura ao seu quarto mandato, Lula blefa. Mas o blefe pode ser necessário, mais uma vez, para conter a extrema direita – sob o ponto de vista da esquerda, enquanto a realidade política do país não encontra um quadro de equilíbrio entre os dois espectros fundamentalistas.