O Tabuleiro da Sucessão e os Desafios do Brasil

Em outubro de 2026, o Brasil viverá mais uma eleição geral, com a disputa presidencial no centro do maior evento político do país. O tabuleiro ainda está indefinido — o jogo eleitoral é dinâmico e responde a fatos novos, sejam espontâneos ou estrategicamente fabricados. As peças se movimentam conforme as contingências dos interesses e dos humores da opinião pública.
Embora os nomes ainda não estejam oficialmente postos, já são ventilados e, surpreendentemente, até defendidos por setores diversos. No campo da direita, muitos dos pré-candidatos acenam com a promessa de indulto a Jair Bolsonaro, como se essa concessão fosse o pedágio obrigatório para conquistar o eleitorado bolsonarista.
Na esquerda, Lula ainda fala em candidatura, mirando um inédito quarto mandato. Mas essa possibilidade soa cada vez menos crível. Os desafios que o próximo presidente encontrará em 2027 — no cenário fiscal, institucional e social — seriam difíceis até mesmo para um governo em ascensão. Lula tenta, ainda, reescrever sua trajetória, marcada por escândalos que o levaram à prisão. E talvez, mais do que um novo mandato, seu foco seja consolidar um legado que resista ao tempo e à história.
Assumir a Presidência do Brasil, a partir de 2027, será muito mais do que vestir a faixa presidencial — será herdar um país polarizado, institucionalmente tensionado e economicamente pressionado por desafios que se acumulam há décadas. A cadeira mais alta da República, outrora símbolo de poder e prestígio, tem se tornado, cada vez mais, um campo minado de expectativas irrealistas, promessas impraticáveis e crises permanentes. Ser presidente do Brasil, talvez seja uma das missões mais ingratas do mundo democrático: o governante é cobrado como estadista, mas frequentemente tratado como alvo; precisa liderar um país continental, mas opera cercado por entraves institucionais, interesses difusos e uma sociedade em ebulição, muitas vezes causados por eles mesmos, enquanto incumbentes.
O cenário econômico que se projeta para o Brasil a partir de 2027 é temerário para a 10ª maior economia do mundo. Com um PIB estimado em crescimento de apenas 1,90% segundo a IFI (Instituição Fiscal Independente) – órgão vinculado ao Senado Federal, e um montante de USD 1,70 trilhão, o país enfrenta desafios severos. A dívida pública, que era de R$ 9,6 trilhões em agosto de 2025, equivalente a 77,5, em 2027, o FMI (Fundo Monetário Internacional) projeta relação com o PIB em 97%; as despesas discricionárias — ou seja, os gastos não obrigatórios previstos na Constituição — também sofrerão um duro golpe. Em 2027, o valor previsto para essas despesas será de R$ 122 bilhões, quantia considerada insuficiente até mesmo para manter a máquina pública em funcionamento. Desse total, cerca de R$ 50 bilhões devem ser destinados ao pagamento de emendas parlamentares. Esse cenário crítico já é reconhecido pelo atual governo, que prevê, para 2029, um orçamento com apenas R$ 8,9 bilhões livres para investimentos. Na prática, isso pode significar falta de recursos até para a manutenção básica de escolas, hospitais e obras públicas, há também problemas tributários crônicos, como o contencioso tributário – a soma de todo os impostos contestados na Receita e/ou na Justiça competente, que está na ordem de R$ 5, 80 trilhões – 77,8% do PIB.
Os números servem não apenas como alerta ao eleitor sobre a importância de escolher um quadro capacitado, mas também revelam o quanto somos grandes como nação — e, na mesma medida, complexos em nossos problemas. A disputa ideológica tem aprofundado o abismo que enfrentamos; a polarização entre direita e esquerda não valeu a pena — e não valerá. Seguimos como cobaias de governos ineptos e perdulários, que nos conduziram, repetidamente, ao caos político e social. Este é, portanto, um momento propício à reflexão sobre os nomes que se apresentam. A seguir, enumero e sintetizo, com a necessária isenção e clareza, para que o eleitor tenha um entendimento mais lúcido da escolha que o aguarda.
No campo da direita, há uma barafunda a ser resolvida. O eleitor mais radical enxerga em Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, o homem que levará adiante a doutrina bolsonarista. Governadores em segundo mandato, com bons registros em seus respectivos estados, também se lançam como opção — como é o caso de Ronaldo Caiado (GO), Ratinho Junior (PR) e Romeu Zema (MG). No entanto, todos os citados são alvo de ataques de Eduardo Bolsonaro, o “03” do ex-presidente Jair Bolsonaro, que também vislumbra o poder e se acredita o verdadeiro herdeiro político do pai. Já há um movimento nítido dentro da direita que aponta Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama, como única figura capaz de arrefecer os ânimos, caso decida se candidatar.

Ainda sobre Tarcísio de Freitas: em seu primeiro mandato, caso opte por disputar a Presidência da República, abrirá um vácuo na sucessão estadual paulista. Ele já é cortejado por Gilberto Kassab, articulador político com grande trânsito nos bastidores nacionais.
Nesse cenário fragmentado da direita, o grande desafio será a construção de uma candidatura que una forças sem provocar novas fraturas. A ausência definitiva de Jair Bolsonaro do pleito — seja por inelegibilidade ou estratégia — torna a figura do “sucessor legítimo” uma disputa simbólica, com potencial para dilacerar ainda mais esse campo. Os ataques de Eduardo Bolsonaro aos potenciais aliados revelam não apenas ambição, mas também a dificuldade do grupo em lidar com divergências internas. Já Michelle Bolsonaro, com forte apelo entre o eleitorado evangélico e conservador, surge como uma espécie de “candidata de síntese”, mas ainda sem experiência administrativa ou articulação política comprovada.
A direita, para manter competitividade, terá que decidir se deseja um candidato palatável ao centro ou alguém que apenas reverbere o discurso bolsonarista puro. Essa escolha pode determinar se continuará sendo uma força majoritária ou se se limitará a uma oposição barulhenta e fragmentada.
Na esquerda, aparentemente em zona de conforto, Lula já ensaia discursos sobre um possível quarto mandato. Conta a seu favor com a estrutura midiática do PT e a força institucional do cargo, em um momento em que, politicamente, pode encerrar o mandato acima do esperado — especialmente com as reuniões previstas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No entanto, pesa contra ele a idade, e, mais do que isso, o desgaste acumulado por anos tentando maquiar os escândalos de corrupção de seus governos anteriores, que voltariam a ser julgados, agora não só pela Justiça, mas por um eleitorado cada vez mais cético, diante dos números catastróficos que os antigos mandatários deixaram como herança.
Nesse tabuleiro político, cada movimento parece menos fruto de estratégia e mais de impulsos – ora movidos por vaidade, ora por ressentimento. O país, nesse compasso, não vê um projeto de nação, mas sim projetos de poder. A sucessão de 2026 será, provavelmente, a mais fragmentada dos últimos tempos, e ao contrário do que seria desejável, não por pluralidade de ideias, mas por pulverização de vaidades. Os nomes surgem, mas poucos se sustentam fora das redes sociais. Há quem pense que basta lacrar, berrar ou rezar para governar o Brasil — um erro crasso em um país que exige seriedade, técnica e articulação. E diante desse cenário, o eleitor, cansado, se vê como o único a jogar com honestidade, em um tabuleiro viciado.
No centro da disputa está Eduardo Leite, governador bem avaliado do Rio Grande do Sul, que, por óbvio, não representa uma “terceira via”, mas sim uma alternativa às candidaturas viciadas. 
Estamos a um ano de eleições que prometem ser das mais hostis, em que o “nós contra eles” pode novamente ditar o ritmo. 
Aos eleitores, ciosos por um Brasil melhor, deixo o pensamento do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade: 


Uma eleição é feita para corrigir o erro da eleição anterior, mesmo que o agrave“.

Em meio ao embate acirrado, o maior poder está na consciência do eleitor — que pode transformar o jogo com seu voto.

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