Cessar-Fogo ou Rendição Moral? A Difícil Equação Entre Reféns, Terror e Estado


O recente acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas, embora necessário para interromper o derramamento de sangue, não é comemorado como uma vitória, aliás, quando as guerras acabam, todos comemoram – na verdade, o fim de um conflito duradouro, de incontáveis barbáries e perda da dignidade entre os povos – em que as duas partes do conflito vislumbram tempos de paz.

Sou contrário a qualquer negociação com grupos terroristas, e essa ressalva se faz mais urgente diante do desequilíbrio flagrante presente nesse pacto: enquanto Israel concorda em libertar quase dois mil prisioneiros palestinos, muitos deles com histórico de envolvimento em atentados, outros tantos, condenados à prisão perpétua, o Hamas se compromete apenas a liberar os últimos 20 reféns israelenses, além de cadáveres.

O acordo, além de refratário a qualquer senso de justiça, carrega em si o peso de uma urgência política particular. Donald Trump, enfrentando rejeição crescente nos Estados Unidos, e Benjamin Netanyahu, alvo de críticas internas e protestos em Israel, encontram no cessar-fogo uma oportunidade de recuperar fôlego político. Essa conjuntura torna o pacto açodado, desequilibrado e distante da proporcionalidade necessária para um processo de paz absoluta.
Trocar centenas — ou milhares — de prisioneiros por algumas dezenas de reféns não é apenas um desequilíbrio logístico, é um sintoma de desespero político, um indicativo de que interesses eleitorais e pessoais se sobrepõem ao interesse nacional e à busca por justiça.
É inconcebível imaginar que o serviço de inteligência de Israel não tenha conseguido eliminar o Hamas ao longo dos dois anos de guerra na Faixa de Gaza, mesmo com incursões pontuais em países da região. O Mossad, outrora admirado por sua excelência — ainda que, por vezes, violasse a soberania de outras nações — desta vez se mostrou ineficaz, refletindo a inércia do combalido Benjamin Netanyahu. Recordo aqui a célebre captura de Adolf Eichmann, realizada na Argentina nos anos 1960, quando Israel, sem qualquer formalidade diplomática, prendeu um dos principais responsáveis pelo Holocausto em território estrangeiro
Por fim, é importante destacar que a criação do Estado da Palestina é uma causa legítima e necessária para a estabilidade regional, mas jamais deve ser confundida com a legitimação de grupos terroristas como o Hamas. Defender o reconhecimento do Estado palestino não significa apoiar seus métodos, mas sim buscar um caminho justo, que respeite os direitos humanos, a segurança de todos e o direito à autodeterminação dos povos.

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