O PACTO


Entre abraços públicos e alianças silenciosas, o ex-presidente Jair Bolsonaro revive o mito de Fausto: um pacto por vantagens imediatas que cobra um preço inegociável. O Judiciário assume o papel de julgador e fiador do destino de um líder político que tentou subverter o próprio sistema com seus instrumentos.

Em 2019, Jair Bolsonaro, recém-eleito com um forte discurso contra o “sistema”, surpreendeu ao selar um acordo político com o então presidente do STF, Dias Toffoli – simbolizado por um abraço público. 
Logo no início do mandato, manchetes sobre um esquema robusto de rachadinhas no gabinete do filho Flávio Bolsonaro se multiplicavam. Para proteger o primogênito, o presidente aceitou um pacto com o Supremo Tribunal Federal, então sob comando de Toffoli — um acordo que remete, simbolicamente, ao pacto entre Fausto e Mefistófeles, na clássica obra de Goethe: uma aliança que oferece vantagens imediatas, mas cobra um preço alto no futuro.
Na obra, Fausto, um idoso erudito insatisfeito com os limites do conhecimento humano, firma com Mefistófeles o compromisso de entregar sua alma após a morte, desde que seus desejos — juventude, energia e sabedoria — fossem atendidos. Embora agraciado, Fausto é perseguido por tragédias, refletindo o custo oculto de seu acordo.
Dias Toffoli e Mefistófeles têm mais em comum do que a simples semelhança fonética de seus nomes. Ambos oferecem favores com uma mão e, com a outra, retiram o que concederam. 
Toffoli, ao selar o pacto com Bolsonaro, mobilizou a estrutura do Judiciário e sua legião de arautos dissimulados — Aras, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Barroso, entre outros — que, juntos, fizeram do ex-presidente um pária no sistema político que ele jurava combater. Bolsonaro fez um pacto com o diabo — e afundou na lama putrefata do mesmo sistema que prometera expurgar.
Na política, pactos têm consequências. E, como na obra de Goethe, ao firmar acordos com “forças superiores”, a cobrança sempre chega — com juros e correção.
O Supremo Tribunal Federal opera sob uma liderança rotativa. Outros “anjos caídos” herdam os contratos firmados. Hoje, sob a batuta do ministro Luís Roberto Barroso, a decadência de Bolsonaro se agrava, com a atuação implacável de Alexandre de Moraes — cuja autoridade inflexível parece arrematar o que pode ser a última linha de uma trajetória política marcada por rupturas, contradições e acordos sombrios.
O pacto entre Jair Bolsonaro e o sistema judicial — personificado em Dias Toffoli, no Supremo Tribunal Federal e nas engrenagens do Judiciário — só diverge do enredo de Fausto, de Goethe, em seu desfecho. No clássico, Fausto é salvo, ao fim, por anjos. Já no drama político brasileiro, os supostos “anjos” que hoje acenam a Bolsonaro com promessas de redenção possuem biografias profundamente comprometidas dentro do mesmo sistema que o ex-presidente diz combater.
Entre eles, Michel Temer — ex-presidente da República, acusado de corrupção e alvo de investigações da Operação Lava Jato — e Aécio Neves, derrotado pelo PT em 2014 e igualmente citado nas delações da mesma operação. Ambos, sob o pretexto de pacificação nacional, articulam uma proposta alternativa à anistia: a chamada “PEC da Dosimetria”, que visa atenuar as penas dos condenados por tentativa de golpe e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. No entanto, essa manobra não representa perdão, nem absolvição, tampouco a recuperação dos direitos políticos de Bolsonaro.
Nos capítulos mais recentes dessa aliança obscura, um novo personagem desponta: Eduardo Bolsonaro, filho tido como símbolo da ala ideológica da família. Apontado como o mais inteligente e articulado, recusa-se a enfrentar diretamente os efeitos do pacto. Preferindo o exílio ideológico, esconde-se atrás da bandeira norte-americana e, à distância, lança ataques verbais contra aqueles mesmos atores com quem seu pai firmou, no passado, o acordo que hoje o imola politicamente.
As manifestações promovidas pela esquerda no dia 21 de setembro em todo o país reforçaram um cenário já delineado: a polarização política brasileira atingiu seu ponto mais agudo. Os números de participantes espelham os registrados em atos da direita, indicando que o embate segue equilibrado — e que os desdobramentos futuros dificilmente trarão estabilidade ou vantagem definitiva a qualquer dos lados.
Eduardo Bolsonaro refugiou-se politicamente nos Estados Unidos, valendo-se da rivalidade entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva — intensificada pelos recentes movimentos do Brasil no âmbito do BRICS — para impulsionar uma ofensiva diplomática contra o governo brasileiro. Tem pleiteado a revogação de vistos, a imposição de tarifas e até a aplicação da famigerada Lei Magnitsky: um dispositivo que estabelece sanções severas contra indivíduos envolvidos em corrupção, violações de direitos humanos e crimes internacionais. Por mais inconcebível que pareça, Eduardo tem obtido êxito em algumas dessas frentes. Contudo, esse sucesso isolado não se traduz em salvação para Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão, inelegível e com saúde debilitada.

Na política, não se deve vaticinar a morte de um ator relevante. Luiz Inácio Lula da Silva, outrora considerado um cadáver político durante sua prisão, foi ressuscitado pelo próprio sistema. Aécio Neves, silenciado e amocambado nos últimos anos, hoje ressurge como voz de conciliação. Agora, é a vez de Jair Messias Bolsonaro, fadado ao ostracismo, sob o eco da voz endemoniada de Mefistófeles, que parece zombar de seu destino:

“Não és mais, meu senhor, do que és: um mortal! 
Perucas podes ter, com louros aos milhões. 
Alçar-te com teus pés nos mais altos tacões, 
Serás sempre o que és: um pobre ser mortal!”
— Johann Wolfgang von Goethe

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