O formador de opinião é alguém com capacidade para influenciar positivamente a outrem em diversas áreas, seja na religião, na medicina, na política, entre outras; exemplo: um médico aconselha melhor sobre a sua saúde que um indivíduo não afeito à área, o mesmo se dá entre os líderes religiosos, que aconselham, guiam e traduzem suas doutrinas e os dogmas inerentes à religião professada.
Nos tempos modernos, a figura do formador de opinião se esvaiu e deu lugar ao influenciador digital ou digital influencer. Mas quem são os influenciadores digitais? São homens e mulheres, na maioria jovens que produzem conteúdo na internet, explorando as redes sociais com peculiar desenvoltura, comunicam-se com as massas, influenciando o vocabulário de seus seguidores, que recebem qualquer factoide criado por eles como verdades absolutas. O influenciador não precisa demonstrar conhecimento no tema que escolheu para dissertar, mas cultivar a opinião além da notícia distorcida. Com a velocidade da Internet, com o advento abrupto das redes sociais, os temas são reverberados sem critério, não raramente fomentando intolerância e ódio.
O mundo digital, se avolumou, mas não a ponto de substituir as ações impostas pelo sistema, a propósito, muito se fala do sistema, e o quão difícil combatê-lo, mas ainda graças ao poder de persuasão dos ditos influenciadores, não perceberam que todos os atores políticos, dele fazem parte, e a babel provocada por ignóbeis digitadores redunda n´uma jocosa caldeação ideológica.
Assim como tem acontecido recorrentemente em outras eleições, a disputa em São Paulo parecia ser entre a clássica disputa de talentos preparados não apenas para o certame, mas para a gestão de um município de orçamento de 120 bilhões de reais/ano – equivalente ao Pib da Jamaica. Os nomes certos para centralizar a disputa eram o de Kim Kataguiri (UB/SP) e Tábata Amaral (PSB/SP), o primeiro desistiu da disputa por não contemplar os interesses do partido, a segunda, segue claudicante sem o apoio suficiente de seus pares, e mesmo que não seja materialmente importante para Tábata, é sempre bom lembrar que o Presidente da República, cabeça de chapa na última eleição, apoia ilimitadamente o desgastado Guilherme Boulos (Psol/SP), enquanto o maior nome do seu partido, o vice-Presidente Geraldo Alckmin (PSB/SP), pouco aparece.
Lula (PT) diz apoiar Boulos, mas as costumeiras trapalhadas do morubixaba petista mais o atrapalham que o ajudam, haja vista o pedido explícito de votos ainda no dia 1° de maio, longe da data limite para Boulos se consagrar candidato, mais recentemente, em evento de campanha, ambos participaram de uma cerimônia em que executaram o Hino Nacional, usando a linguagem neutra, um prato cheio para seus opositores, causando frissón, até mesmo no campo da esquerda, que entendem como inaceitável, dada a estupidez de se criar um dialeto temático.
Marçal navega em leito calmo, e para muitos, já está eleito – a futurologia é dos influenciadores, mas é muito bom se cuidar, pois as narrativas vencem, e tomo como exemplo a eleição de 2022, que contrariando prognósticos, Bolsonaro (PL/SP) – preso às falácias sobre as urnas eletrônicas, perdeu para Lula, recém egresso do sistema prisional.
O influenciador digital já ganhou destaque na política em várias partes do mundo, e no Brasil não é diferente, o Deputado Federal mais votado em 2022, Níkolas Ferreira (PL/MG), era influenciador de pautas conservadoras, que lastreado pela igreja dirigida pelo pai, alçou um exitoso voo até o Congresso Nacional, ainda que desde que lá pousou, nada tenha agregado, limitando-se a se comportar como se estivesse diante das câmeras.
O exemplo mais recente de influenciador que explora seu sucesso em nome da política é o de Pablo Marçal, aliás, um multifacetado influencer, que atua como coach, depois de atuar no “chão de fábrica” no mundo corporativo. Marçal é um homem de raciocínio rápido, com formação em direito e dela se vale, discursa tempestivamente contra ou a favor, conforme a contingência do eleitorado. Acusa sem provas, confiando na morosidade das investigações e a sobrecarga nos tribunais, enquanto recrudesce seu nome em uma campanha ajustada para a Prefeitura Municipal de São Paulo; Marçal definiu rapidamente o seu alvo, Guilherme Boulos, e o vem trucidando no curto período de campanha, a despeito dos gaps, Marçal alterna com seus principais rivais o topo nas pesquisas de intenção de votos, e faz circular a “boa nova” n´um ambiente em que ele conhece melhor que qualquer brasileiro, a rede social.
Marçal cansa a plateia adjacente à sua, com seu discurso de prosperidade e ostentação exacerbada de uma riqueza concebida no meio digital, sua luta contra a dupla Ricardo Nunes (PSD/SP) e Guilherme Boulos (Psol/SP) somente será vencida pelo voto estratégico ou seja o voto útil para limar dentre ambos o mais rejeitado. Aqui não falo de voto de protesto, por crer no alto grau de maturidade do eleitor paulista, até porque, já vivenciou administrações de esquerda em tempos idos, como Luíza Erundina, Marta Suplicy e Fernando Haddad, portanto, o povo paulistano não se assustaria com a presença da figura ameaçadora de Boulos e o seu emblemático partido que tem como bandeira a ocupação de propriedade privada, a propósito, Boulos, sim, se veria assustado, pois passaria a atuar do lado de dentro do balcão, com interesses diversos.
Não precisa gostar de Pablo Marçal para perceber que ele entendeu como jogar o jogo usando a ferramenta mais acessível da atualidade. Marçal empreende um discurso agressivo, ligeiro, suscetível a cortes de edição, alimentando as massas, colaborando para um espetáculo dantesco na maior cidade do Brasil, tentando em vida, herdar a turba do clã Bolsonaro, com quem vem trocando rusgas, seguidas de pedidos de desculpas, e é perceptível que os adeptos do Capitão, hoje votariam em Marçal, que caso vença, terá o peso de se render ao policarpismo que vigora no Brasil desde 2019.
A confusão não será tão cedo resolvida, o influenciador político não tem compromisso com a verdade, mas com a opinião e os seguidores têm compromisso perpétuo com lideranças construídas à base das narrativas criadas em ambiente puramente digital.
Estamos no auge da campanha em seu primeiro turno, e o apoio de Bolsonaro a Ricardo Nunes é mera formalidade, mas acossado por Marçal, não será surpresa, uma postura mais incisiva do Capitão em favor de seu indigesto apaniguado, o que provocaria, de fato o primeiro racha na direita pós-Bolsonaro, e até lá, impossível fazer um prognóstico de uma eleição superlativa, dada o ajuste na disputa, a dimensão do município, os quadros políticos envolvidos e claro, a força advinda de ambiente tóxico como as redes sociais.