Existe no Brasil uma importante tradição inserida na cultura política, o patriarcalismo, narrado por Max Weber no começo do século XX. Do patriarcalismo surgiram o cordialismo, o flihotismo e o familismo. Em comum, a subserviência ao chefe de família que comanda seu clã, inclusive favorecendo aos seus membros com cargos, funções e relativo poder colateral.
Nos dias atuais, o patriarcalismo salta aos olhos, mesmo em tempos de compliance, que redunda em aglutinar normas éticas em favor da boa governança e acountabiltiy, que determina a responsabilização, transparência e controle. Vale o registro de que a lei que versa sobre o nepotismo é ambígua, com exceções, como a de um líder contratar um parente em linha reta, desde que para cargos estritamente político, em que o nomeado ou indicado tenha conhecimento robusto da função da qual irá exercer, o que nem sempre ocorre nas nomeações, causando furor na sociedade. Mas como identificar as diferentes ideologias através de suas características?
• Cordialismo: Empregado na política contemporânea brasileira como troca de favores ou como pagamento por serviços prestados, podemos observar que a aproximação se dá no âmbito profissional, político ou ideológico; como exemplo, as indicações para Ministros do Supremo Tribunal Federal – Dias Tófolli, claramente sem envergadura jurídica para o exercício da função, mas pertencente à visão socialista do Presidente de turno, Lula (PT), outro exemplo ainda mais patente, o Ministro Alexandre de Moraes, que como Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, fora ágil em servir ao então Vice-Presidente Michel Temer, que ao assumir a Presidência da República, içou o seu mais novo pupilo ao Ministério da Justiça e posteriormente à Suprema Corte, e com Temer, goza além de prestígio, uma relação amistosa, tanto que longe do poder, Temer serviu como interlocutor para resolver uma quizumba em forma de desafio por parte de outro Presidente de turno, Jair Bolsonaro. Como missão de apresentar o aspecto nocivo de indicações não técnicas, mas apenas cordiais, basta observar as condutas dos dois mencionados, apontados somente para efeito de exemplo, pois se averiguarmos cada um dos ocupantes das onze cadeiras, poderemos ter surpresas odiosas, além de clara obrigação que os apaniguados têm para com seus pater familae.
• Filhotismo: o mais clássico e perene contributo repulsivo que compõe o patriarcalismo; presente em todas as esferas do poder, o filhotismo foi a marca do governo Bolsonaro, seus filhos, eram e continuam respectivamente, Vereador, Deputado Federal e Senador, lembremos da tresloucada tentativa do ex-Presidente em nomear seu filho 02, o Deputado Federal, Eduardo Bolsonaro a Embaixador do Brasil no Estados Unidos. Sua experiência? Fritar hambúrguer no Maine. Fora do poder, mas ocupando importante lacuna no debate púbico, o bolsonarismo tende a emplacar mais um membro da família, agora na Câmara dos Vereadores de Camboriú/SC. Mas não para por aí, a prática no Brasil se tornou trivial e está amocambada nos rincões do país, há um caso mais recente para exemplificar que ocorreu na pequena Simolândia/GO, de 6 mil habitantes; a prefeita, D. Dete (UB/GO), nomeou como Secretário de Administração, o seu filho, Hugo Gomes, que na sanha de reeleger a mãe, a fim de se manter no poder, teria oferecido benefício pecuniário a uma candidata a vereadora na chapa adversária, para que ela desistisse da candidatura, o que provocaria fraude no sistema de cota feminina; imediatamente após, faria a denúncia no Tribunal Regional Eleitoral, visando culminar com a impugnação da candidatura de Vander Terra (PL), o adversário da mãe. O valor constante no processo que transita no TRE/GO em Alvorada do Norte/GO, cidade contígua a Simolândia seria de 5 mil reais e um emprego na Prefeitura, somente pela desistência, que teria sido aceita, conforme noticiado no site jornalístico Goiás24horas.
• Familismo: Também conhecido como familialismo é uma ideologia que privilegia o seio familiar em quaisquer que sejam as questões abordadas, o filme “O Poderoso Chefão” de Mario Puzzo, dirigido por Francis Ford Copolla, é o que melhor sintetiza o tema na política nacional, não por acaso, estamos vivenciando-a no Governo Lula, aliás de maneira recorrente, vale trazer a reminiscência de seus mandatos anteriores, em que os filhos se valeram das prerrogativas do pai para se promoverem; o que cuidava de animais no zoológico em São Paulo, tornou se importante empresário em vários segmentos, chamado de “ O Ronaldinho dos negócios”, outro, um frustrado desportista, deteve e/ou detém contratos vultosos com agremiações de diversas modalidades. Já no seu terceiro mandato, delega funções de Estado para a Primeira Dama Janja, que durante a enchente no Rio Grande do Sul, pavoneou se juntos aos flagelados em busca das luzes da ribalta, mais tarde, representou o país, na França, por ocasião das Olimpíadas de Paris, em detrimento do Vice-Presidente Geraldo Alckimin (PSB).
A democracia é um regime em evolução, não se pode afirmar que seja um conceito pronto e embalado, mas na contramão da ideia surgida há mais de 2500 anos, nós, não somente brasileiros, mas latino-americanos temos definhado, e incorremos em sério risco de vê-la distante.
As relações parentais em governos sejam de direita ou de esquerda, como querem entender sobre a política rasteira que nos norteia, trazem um enorme peso, em que testemunhamos círculos familiares prosperarem enquanto assistimos passivamente as classes dominadas servindo a famílias inteiras.
Não esperemos de nossos governantes, algo diverso ao exposto, mas nos informemos mais sobre os abusos, para denunciarmos as más condutas daqueles em quem confiamos nossos votos. O patriarcalismo vem de muito longe, Plutarco mencionava no século VIII a.c. um diálogo entre um cidadão dório e Licurgo, legislador espartano, que ao ser questionado por que não implantou em Esparta a democracia, ele respondeu: – Comece, amigo, monte-o e sua família!
O patriarcalismo não é o único condão do retrocesso político, cultural e judicial no Brasil, mas são visíveis, a corrosão social, os abusos e a desonra a todo um povo.