O DISTRIBUTISMO CONTRA A POLARIZAÇÃO

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A polarização política que ora nos afeta é protagonizada pela dicotomia direita/esquerda, enquanto a direita vislumbra voltar à ribalta, a esquerda governa o país com o anteparo de partidos satélites da estrela maior, o PT (Partido dos Trabalhadores) e convivem equidistantes, porém coordenados, e isso é visto a olhos nus, e não é incomum que alguns de nós, caiamos na esparrela de vulgarizar as sínteses “extrema” e “ultra”, em razão das atitudes das militâncias ignorantes de ambos os lados; a direita e a esquerda não são extremistas, são monoteístas, em que não se permite a existência de outros deuses; aqui eu me adentro a uma tese de que a religião e a política se retroalimentam, não por acaso, o conservadorismo brasileiro pega carona na crença cristã para difundir sua agenda, e não é desrespeitoso divagarmos sobre, enquanto na outra ponta, o discurso retórico reflete o contraditório.

Para suavizar os reflexos nefastos que o fundamentalismo nos proporciona, é de suma importância, fugir dos extremos, e ainda na esteira da simbiose política/religião, apresento o distributismo ou distributivismo – inspirada na Encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII de 1891– Doutrina Social da Igreja, um sumário ético e moral que abarca as transações econômicas, relação patrão empregado, ações sociais e amplificação do tema propriedade; em tempo, nos primórdios da política polarizada, a discussão principal era sobre a propriedade, mas o preceito do distributismo idealizado pelo escritor britânico de origem francesa, Hilaire Belloc e pelo jornalista britânico Gilbert Chersteston, surgiu para difundir outros motes não menos importantes.  

O distributismo por sua vez, inspirou o sociólogo britânico Anthony Giddens a criar o conceito da Terceira Via, que soa para o eleitor em qualquer parte do mundo como mera alternativa aos debates promovidos pelo liberalismo e o socialismo, que em muitas vezes redunda no surgimento de opções não viáveis aos certames, leve se em conta a eleição presidencial de 2022, que ainda no primeiro turno era possível aferir o descontentamento do eleitorado, que se mostrou não afeito aos quadros dispostos no pleito, o primeiro turno, claramente fora resolvido com base na rejeição, houve empate técnico, abstenção de 20,59% somada aos votos em branco, nulos ou em candidatos com baixo índice nas pesquisas de intenção de votos, totalizaram o valor espantoso de 33,51% do eleitorado, um terço da população politicamente ativa que não contempla qualquer uma das duas pontas. A Doutrina Social da Igreja que inspirara Belloc e Chersteton pulsa no conceito de terceira via que visa realocar os pensamentos políticos, econômicos e sociais em um vácuo indiferente à polarização.

A Terceira Via foi muito comentada às vésperas da eleição de 2022, tentou se emplacar um nome, mas não foi o bastante, é preciso discernimento dos poucos e valorosos quadros verdadeiramente envolvidos com suas demandas, que com destreza possa romper com o sistema binário, enfadonho e putrefato que vigora hoje no poder.

Há exemplos de Terceira Via com relativo sucesso, e o período mais fértil para se apreciar, vem da década de 1990, em que a Terceira via era representada pelo ex-Presidente norte americano, Bill Clinton, pelo ex-Primeiro Ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, além de atores políticos importantes na América Latina, como o ex-Presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso e o ex-Presidente chileno Ricardo Lagos; nos dias atuais, percebemos duas correntes de Terceira Via; na Alemanha, o semáforo alemão, título oriundo das cores dos partidos que compõem a fusão – o SPD (vermelho), o Liberal (amarelo) e o Partido Verde, colocando um basta na divisão pós Merkel. Na França, há uma Terceira Via, porém não bem elaborada, por isso, fadada ao esvaziamento, em que o Presidente Macron se apresentou fragilmente contra os extremos da esquerda de Jean-Luc Mélenchon e a direta de Marine Le Pen, confirmando que viabilizá-la não é simplesmente apontar um nome, mas cultivar robusta coalizão.

Giddens acredita que a Terceira Via deve ser desenvolvida no espectro de centro-esquerda – social democracia, mas há correntes que defendem a união de centro, envolvendo desde a centro-esquerda, o centro até a centro-direita, visão da qual eu assinto, mas no Brasil, somente será possível, enquanto o debate versar sobre temas políticos não eleitoreiros, com visão benéfica para a população.

É possível emplacar a Terceira Via no Brasil, e o tiro de largada deve ser dado muito antes da campanha eleitoral para a Presidência da República, em que pese os palanques políticos aqui estão se perpetuando, é hora de uma nova súplica, é hora de uma nova grita, é hora de outra via, a polarização tem nos roubado a liturgia, a erudição, a inteligência e a civilidade, sempre que abrimos mãos dos princípios morais e éticos em favor de qualquer populista que não nos encanta, mas se opõe a outro de igual quilate

Aos que postulam a Terceira Via, o primeiro passo é prescindir aos debates gerados pelas turbas, não há necessidade de emitir opiniões, reverberar as jocosidades produzidas pelos polos, mas abstrair e cobrar dos eleitos com eloquência. Há a necessidade premente de união com forças políticas de vezo conciliador em busca da soberania popular, com discurso fácil, sem rótulos ou nomenclaturas que muito mais confundem e não traduzem a paz almejada por um terço da nação,

Paul Valery, filósofo francês, define bem  os movimentos colaterais da política, inclusive nos nossos dias, em que temos sempre uma opinião formada sobre tudo, mesmo de fatos ou matérias distantes de nossa realidade, mas  por mais tentadora que possa parecer, não é difícil se afastar da polarização, é apenas o primeiro passo para a conscientização do mais importante quadro político no sistema eleitoral, o eleitor, o que não contraria a visão de Bertold Brecht sobre o analfabeto político, aliás, a reforça, quando renunciamos aos debates infrutíferos, e  vivenciamos sabiamente a política como vetor de qualidade de vida.  

“A política foi primeiro a arte de impedir as pessoas de se intrometerem naquilo que lhes diz respeito. Em época posterior, acrescentam-lhe a arte de forçar as pessoas a decidir sobre o que não entendem”.

Paul Valléry

Filóso francês

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