O GRANDE INQUISIDOR E A DEMOCRACIA TACANHA

“Às vezes, o pensamento mais estranho, mais impossível na aparência, apodera-se de nós com tal poder, que acabamos por julgá-lo realizável, mais ainda:, se a ideia se associa a um desejo violento, apaixonado, tomamo-la às vezes, no fim das contas, por algo fatal, inelutável, predestinado.”
Fiódor Dostoiévski


Deputados de oposição visitaram os Estados Unidos em março de 2024 para vociferar na OEA (Organização dos Estados Americanos) ao lado da ex-juíza Ludmila Grillo, que o Brasil vive uma ditadura, a grita de que vivemos uma tirania é recorrente, sobretudo no judiciário, mas em território nacional, agora, a oposição se vale de um flanco aberto para divulgar no mundo aquilo que eles acreditam ser a verdade.
O ex-Presidente Donald Trump os recebeu para um jantar em Mar- a-Lago para alinhamento de pautas e a proposta de fortalecimento do eixo da direita, com a participação do ex-presidente Jair Bolsonaro, via ligação por vídeo, Trump posou para fotos ladeado por Eduardo Bolsonaro (PL/SP) e o ator Mário Frias (PL/SP), aqui teço elogios para a sua melhor representação, que como Deputado Federal é um excelente ator. Em tempo, Trump goza de bom relacionamento com Elon Musk, megaempresário, proprietário da rede social X, daí, não se vê coincidência em relação à barafunda envolvendo o Ministro Alexandre de Moraes.
Moraes chamou para si a responsabilidade de paladino da Suprema Corte após ser desafiado pelo ex-Presidente Jair Bolsonaro, mas se perdeu no personagem, exagerando nas ações antropocentrisas na Corte, agindo como o Grande Inquisidor – personagem do personagem Ivan Karamazov, do romance “Os Irmãos Karamazov” de Fiodor Dostoievski, que prendeu Jesus e o condenou ao fogo, em suma pelo rigor imposto pelo cristianismo ao povo que o segue. A referência leva ao entendimento de que Xandão prenderia Jesus, pelo fato de que o povo não usufrui adequadamente da liberdade dada por ele, por sorte, não pagaremos para ver, contudo é importante ponderar o que vem ocorrendo sistematicamente no Brasil e como foi possível chegar ao ponto em que estamos, e isso só será possível avaliando como banalização o termo ditadura do judiciário.
O Presidente da República conforme reza a Constituição Federal, (art. 92 a 126) tem a prerrogativa de indicar nomes com requisitos pré-determinados para as esferas do judiciário, alguns casos, como no STF (Supremo Tribunal Federal), o cargo é vitalício, não atrelando com aquele que o indicou, agora percebam o capricho utilizado no termo acima, o Presidente indica, mas não é ele quem decide, a nomeação se dá, após sabatina exercida por Senadores eleitos, no exercício da função.
Atendo-me apenas ao nome de Alexandre de Moraes, o Ministro mais inclemente do escrete da Suprema Corte, indicado pelo ex-Presidente Michel Temer, obteve 55 votos favoráves ao seu ingresso, contra 13 em uma votação secreta em 2017, 68% do contingente do Senado Federal, muitos dos quais ainda cumprem mandato, e mais, alguns que se apresentaram veementemente contra a indicação, hoje apoiam o Ministro contra as investidas da oposição.
Há mecanismo legal para a deposição de Ministros do STF, só o Senado Federal poderá admitir processo de impeachment, mas não o faz porque é sabido que muitos dos nobres Senadores que aderem à indicação do Presidente da República estão encalacrados com a justiça, portanto se tornam reféns dos ilustríssimos, e o que sobra é o alarido desprezível de que há em curso uma ditadura.
É também sabido que em caso de deposição de um Ministro, o Presidente tem o direito de indicar um novo nome, impondo no nosso sistema político, um enorme círculo vicioso, mas também é sabido, que o Presidente da República pode sofrer processo de impeachment por crimes de responsabilidade, e os mecanismos estão aí, postos e consolidados, à vista disso, o que vivemos hoje é a consequência das nossas ações, consequência dos nossos votos.
Não se vislumbra sucesso a partir de um espetáculo desenxabido promovido por títeres mambembes que teriam muito o que fazer em homenagem aos seus eleitores. Viajar pelo mundo falando mal do Brasil é uma peripécia repetida, sem que se esgotem todos os meios legais. Hoje, em meados de abril, a mesma banda está ampliando a voz da indignação no Parlamento Europeu, dando mostra de que a guerra fria cibernética não tem data para acabar, o que nos relegará à condição de democracia tacanha.

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