A MENTIRA É A MÃE DA CORRUPÇÃO!

“A imprensa é muito séria, se você pagar, eles publicam até a verdade!”
Juca Chaves


Há uma história, de que São Tomás de Aquino, em período de estudos no Convento de Saint Jacques, fora abordado por um espirituoso colega Frade, em sua cela. Esbaforido, o companheiro o chamou para o pátio e apontou para o céu:

  • Olha, um boi voando!
    São Tomás procurava o boi nos ares sem manifestar espanto, provocando gargalhadas do galhofeiro frade, que provocou:
  • Como pode, o mais culto dos colegas acreditar que um boi possa voar?
  • Eu prefiro acreditar que um boi possa voar, que um frade mentir. Disse Frei Tomás

Há poucos dias, vimos vindo da Palestina, uma desinformação que causou repercussão imediata, um míssil que teria atingido um hospital, após ser lançado por Israel, mas o míssil não foi lançado por Israel, mas pela Jihad Islâmica e não foi em direção ao hospital, ele falhou, perdeu potência e a profundidade do local atingido foi de 19 cm, e não matou 500 pessoas, conforme divulgado.
A guerra no Brasil é contra a corrupção, e para além da desinformação, há as mentiras absurdas, que vêm sendo difundidas, inclusive por importantes órgãos de imprensa, que teimam em relegar suas atividades formais no aclamado quarto poder a de propagadores de boatos, valendo se da credibilidade conquistada ao longo do tempo.
Na semana que se passou, a OCDE (A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) – sigla em inglês, emitiu um relatório de 117 páginas demonstrando preocupação com os rumos dos muitos acordos de leniência provenientes da Força Tarefa Operação Lava-Jato, em face da anulação do instrumento lavrado no contexto da Construtora Odebrecht. Ato contínuo, ícones do jornalismo especializado deturparam a notícia, como se a OCDE estivesse admoestando a exitosa e saudosa Operação e seus atores, o que fora prontamente rebatido pelos envolvidos e noticiado em outras emissoras com zelo e respeito pela informação como ela é. O relatório que já estava consumado, foi reaberto para manifestar que a OCDE irá observar atentamente o combate à corrupção no Brasil, com a percepção de que este será um tema cada vez mais desimportante no país. A preocupação da OCDE é retratada na página 100:
“Esse grupo de trabalho vai acompanhar as consequências que uma decisão de setembro de 2023 de um juiz do STF sobre o acordo de leniência da Odebrecht pode ter nos acordos de leniência do Brasil nas questões antissuborno, em particular em que extensão isso vai afetar a habilidade do Brasil de prover e obter assistência mútua em casos de suborno internacional”.
O Financial Times divulgou ampla reportagem, ouvindo dois brasileiros, Bruno Caraza, professor da Fundação Dom Cabral e Matias Spektor, professor da Fundação Getúlio Vargas, este, o que praticou o senso comum de apontar excessos da Operação Lava-Jato, acusando a de causar enormes danos à política.
O que os indiciados da Operação Lava-Jato alegam, é que a Operação trabalhou com o intuito de criminalizar a política, mas o nexo causal apresenta o contrário, se foram alcançados, é porque a política invadiu as páginas policiais, e o que hoje acontece, não é apenas a criminalização de setores da política, mas a marginalização e a ridicularização, não só dos políticos, mas também dos eleitores, pois sempre há quem saia em defesa de nomes proeminentes da política brasileira, basta se posicionar à direita ou à esquerda, a militância se apresenta e não raro, aplaudem as notícias imprecisas, mormente se estiverem a serviço do seu escolhido, não importa os prejuízos ao erário público que as práticas de corrupção causam ao país.
Temos por hábito normalizar termos e expressões, aplicando para qualquer situação sem que o contexto seja adequado, lembremos que em meados de 2016, a palavra golpe foi usada à exaustão, por conta do processo de impeachment da ex-Presidente Dilma Roussef, o termo é utilizado ainda hoje, mais uma vez contra os opositores do governo; o termo narrativa é outro que se desgastou, embora as narrativas são dentes da engrenagem política, um quadro político não vive sem e tem de ser renovada para que que dela não se canse. Sobre os golpes acusados, o primeiro foi referente ao legítimo processo de impeachment, o de agora, foi apenas um delírio de quem acreditava que teria o apoio das Forças Armadas, não houve golpe, sequer tentativa, houve no máximo, atos de covardia, seguidos por atos de vandalismo, mas o termo perdura. Sobre as narrativas, são coqueluches quando se trata da Operação Lava-Jato, e já há uma nova expressão que vem cansando os ouvidos de quem acompanha a política. A palavra da moda é parcial ou parcialidade.
Jornalistas consagrados, premiados, detentores de espaço em horário nobre, perderam o pudor em atacar com inverdades, aqueles que desnudaram a corrupção no Brasil. Ouço à exaustão falarem da parcialidade do então Juiz Moro, com base em mensagens divulgadas por um parlapatão gringo e um criminoso agora condenado, mas não falam da parcialidade de ministros da Suprema Corte, não fazem autocrítica, não se cobram; jornalistas também devem ser imparciais, opiniões, quando no intuito de interpretar os fatos narrados, são bem-vindas, tirante a isso, são desnecessárias. O que se diz é que os hackers chantageavam jornalistas, fazendo que mudassem de opinião. Em tempo; mudar de opinião é a expressão sadia de quem pensa com justeza, mas não é razoável que as informações sejam corrompidas ao sabor dos interesses de criminosos, muitos deles condenados – mesmo que saibamos que o interesse maior é sobre Lula, aquele se tornou Presidente da República.
O processo de adesão do Brasil à OCDE possibilitaria desenvolvimento econômico, considerando a situação de emergente vendedor de commodities, mas o conjunto de desvantagens – a OCDE é o clube dos ricos, que se dedica ao desenvolvimento econômico que invariavelmente interfere na estrutura econômica, cambial e taxas de juros de seus associados, algo que o PT, leia se governo, jamais admitiria.
O governo anterior acreditou na promessa de apoio de Donald Trump para adesão ao bloco em 2019, o que não se confirmou, conforme se falou à época, por conta do remanejamento do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) do Ministério da Justiça para o Ministério da Economia, visando proteger Flávio Bolsonaro – filho do então Presidente Jair Bolsonaro das acusações de peculato. Sempre bom lembrar, que um acordo fora costurado com o Ministro Dias Toffoli, conhecido como “o amigo do amigo do meu pai”, o mesmo que veio a anular o acordo de leniência da Odebrecht.
O alinhamento de grandes veículos de comunicação com o atual governo se justifica, mas não o descompromisso com a verdade. A fração de brasileiros ávida por notícias acerca de política foi refém do Jornal Nacional por mais de duas gerações, e por tudo que se ouvia, é inimaginável que nomes da envergadura de Cid Moreira e Sérgio Chapelin pudessem reverberar notícias falsas ou inconsistentes, foram homens com tal estatura moral e profissional que conquistaram a credibilidade, ora dilapidada.
Seguindo a linha de raciocínio de São Tomás de Aquino, eu preferiria mais acreditar que um boi pudesse voar, do que assistir a jornalistas mentirem descaradamente.
A nobreza do trabalho jornalístico acontece quando informa e favorece às rápidas tomadas de decisões, e na medida em que a decência se vai com a credibilidade, cresce a procura por mídias alternativas, colocando grandes profissionais a serviço de um grande veículo em pé de igualdade com os teóricos da conspiração.

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