AS COMPLEXIDADES DO CONFLITO ISRAELO-PALESTINO

“Em tempo de paz o homem belicoso ataca-se a si próprio.”
Friederich Nietzsche

É preciso discernimento para se inserir em um debate tão sensível, seria leviandade não reconhecer a causa palestina como legítima e ainda mais leviano seria culpar o povo de Israel pelos recentes acontecimentos. O que ocorre entre árabes (não somente palestinos) e judeus, são guerras oriundas de várias particularidades, sejam por aspectos religiosos, culturais, econômicos ou políticos, e não raro, todos estes ingredientes compõem um prato indigesto, como o que está servido. Tão difícil também é encontrar um bom termo para discutir o tema sem aviltar qualquer uma das partes, considerando que a melhor justificativa para uma guerra não exime seus principais atores da estupidez.
A inquietação contagiante de uma guerra atroz não abala o purismo ideológico de quem é ao menos por enquanto, espectador das truculências perpetradas. Defender o Hamas é inadmissível, não defender o povo que não viveu outra condição a não ser a guerra é igualmente inadmissível.
Tente imaginar um cenário em que árabes e judeus sejam vizinhos, amigos, torcem para o mesmo time de futebol, frequentam as mesmas festas, socorrem um ao outro em situações que mereçam atenção e oram um pelo outro, só não vale pedir a mão da filha de qualquer dos dois em favor de um dos seus filhos, pois proporcionaria um desentendimento, no mais, são pessoas comuns à margem dos conflitos. Assim vivem árabes e judeus pelo mundo, os judeus, com mais desenvoltura no sentido de viverem assimilados em plagas distantes, que com sua cultura peculiar, não se desfazem tão fácil de seu povo; os árabes, que são muitas vezes obrigados a se deslocarem para onde não pensariam em tempos de serenidade, sofrem hoje, guardadas proporções, o que os judeus sofreram no período que antecedeu ao holocausto, a xenofobia e o preconceito, muitas vezes velados. É quase impossível, um filho pródigo de um casal de imigrantes árabes , após a graduação, pós-graduação, doutorado e mestrado, prosperar em um vaga de emprego em qualquer metrópole europeia, apenas por causa do seu sobrenome, ficando este, postulante a uma vida correta, à mercê dos convites indecorosos para integrar grupos terroristas cada vez mais próximos do Ocidente.
Em comum entre judeus e palestinos, há o fato de se considerarem descendentes de Abraão, o que se confirma no Velho Testamento – Genesis 16-18. Para os estudiosos do conceito judaico-cristão, este é o “efeito borboleta” da crise intermitente no Oriente Médio – a relação extraconjugal de Abraão e sua escrava, com o consentimento de sua esposa Sara. Para os judeus, a aliança de Deus com Abraão previa a circuncisão de sua descendência, o que fora contemplada por Ismael, filho de Abraão – com sua escrava Hagar – circuncidado no mesmo dia que seu pai; Isaque, fruto de sua relação com Sara – prometido por Deus, não obstante a idade avançada do casal, fora circuncidado após oito dias de nascimento, portanto a aliança com Deus estava firmada, e estaria nascendo, do Vale do Rio Jordão ao Mediterrâneo, duas grandes nações. Seria Isaque a origem de Israel e Ismael a origem da Palestina? Qualquer que seja a resposta, a diferença já começa ao confrontar dois filhos legítimos disputando violentamente o mesmo território. Registro aqui a abordagem genérica ao tema religião, exposto apenas para o preenchimento de uma lacuna histórica. Em tempo, os livros do Velho Testamento são na maioria usados no ensinamento básico escolar no Oriente Médio – os doze livros históricos: Josué, Juizes, Rute, I Samuel , II Samuel, I Reis, II Reis, l Crônicas, II Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester, I Macabeus, II Macabeus; muitos dos quais, abarcam a Torá, livro sagrado do judaísmo. As religiões têm de mim, profunda reverência, até mesmo o direito de não professar nenhuma fé é digno de ser respeitado.
O Hamas é um partido político com forte inclinação para o terrorismo. Ou quem sabe, um grupo terrorista com forte vezo político? Surgido em 1987 a pretexto de eliminar o Estado de Israel – Hamas é um acrônimo para “Harakat Al-Muqawama Al-Islamiyya” – Movimento de Resistência Islâmica, e a junção de suas iniciais dá o sentido de zelo, entusiasmo, ardor e calor, denotando um grupo enérgico em busca de seus objetivos, o que foi testemunhado em um de seus primeiros atos, a Primeira Intifada em 1987, quando enfrentou o exército israelense a paus e pedras, mas a coragem demonstrada ainda no início de suas atividades, deu lugar a uma barbárie jamais presenciada no mundo real. O que se vê hoje é uma covardia sem limites e sem precedentes, e por mais que busquemos adjetivos para classificar as investidas macabras, seriam impronunciáveis em qualquer ambiente minimamente civilizado, portanto, dispensável narrar quaisquer que sejam os atos bestiais banalizados por homens desalmados.
Enquanto governos de todo o mundo condenaram a incursão terrorista do Hamas contra Israel, o governo brasileiro, no máximo emitiu uma nota protocolar contrária aos atos de guerra, sem mencionar o grupo terrorista como o é – Brasil, África do Sul, Rússia e Noruega não reconhecem o Hamas como terrorista, o Itamaraty justifica o não reconhecimento, porque a ONU (Organização das Nações Unidas) também não o faz, como se um conjunto de nações tivesse o poder de suprimir as decisões de uma nação soberana. O Brasil de hoje não reconhece o Hamas como grupo terrorista por arbítrio do atual governo, mas tivemos outros governos que também se omitiram, e à propósito, não seria o bastante, pois o desequilíbrio da discórdia entre judeus e palestinos é a negligência do poder colateral, que dá azo ao deterioramento dos conflitos há mais de 70 anos, como se fossem fatos corriqueiros; é lugar comum ouvir que aquela região é um barril de pólvora, e que não há qualquer ação eficaz em busca da paz entre árabes e judeus.
As guerras deixam heranças nefastas, não somente para seus povos, mas para todo o mundo civilizado, haja vista, a Palestina que deixou de ser um Protetorado Britânico para se tornar um Estado independente após um acordo que o faria dividir espaço com judeus que estariam voltando para casa. Os palestinos em 1947 não aceitaram o acordo, pois almejavam manter suas fronteiras e não abrem mão de que sua capital seja Jerusalém, importante deixar claro que Jerusalém é uma cidade sagrada para cristãos, judeus e muçulmanos, e não estava ou jamais esteve cogitada como capital de qualquer uma das duas nações, embora alguns países, inclusive os Estados Unidos transferiram para lá suas embaixadas, algo pensado também no Brasil, no Governo Bolsonaro.
O povo palestino não carrega a culpa de ter o Hamas ditando normas em seu território, eles não votam desde de 2006, por não haver garantia de que Israel permitiria que os palestinos que vivem em Jerusalém Oriental pudessem votar, e sem a livre escolha, o recrudescimento de bolhas terroristas se fez notar. Israel, embora seja muito próximo de ser um Estado teocrático – muitas leis no país são fundamentadas na religião – é um bálsamo no Oriente Médio, há liberdade de expressão, direito à propriedade privada e direitos humanos, o que dão lastro à democracia, que presenciou sua juventude representada em um festival de música eletrônica ser sucumbida por forças terroristas; vale a provocação – o que tem o povo palestino que ver com isso? Nada! São vítimas que agora padecem de uma guerra entre um país constituído e o terrorismo, em que as leis inerentes não serão aplicadas, causando efeito mais lesivo.
Quando George W. Bush reagiu contra o terrorismo de maneira desabrida em 2001, invadindo países como Afeganistão e o Iraque, fez surgir novos braços terroristas na região, que hoje assolam o mundo ocidental, e não está certo de que o Estado Islâmico tenha sido derrotado, pode estar apenas dormitando, e também não há menor contemplação de que o Hamas seja derrotado tão cedo, posto que recebe apoio de países com forte aparato bélico – o Irã, por exemplo e de outros grupos terroristas como o Hezbolah, e infelizmente é impossível prever quantos ovos da serpente essa guerra irá chocar, quantos tentáculos terroristas virão assombrar o mundo.
A paz no Oriente Médio somente será possível quando o Ocidente, por meio de suas principais lideranças, desprendidas de interesses ou vaidades pessoais se interessarem pelo tema, a história está sendo escrita com diferentes versões, para os religiosos mais ortodoxos, é o fim do mundo, mas o mundo está inacabado, é preciso circundar a questão israelo-palestina com contornos de tranquilidade. Oxalá, seja breve esta reflexão, e que ela não venha mais como músicas ou poesias, que via de regra, representam o choro dos derrotados e o grito dos desesperados, mas que seja uma catarse para quem sobreviveu para contar uma história com final feliz!

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