
Na tresloucada missão de reescrever a história, ainda que por linhas tortas, o Presidente Lula, colocou no topo do poder da República, a sua esposa; Lula que para além de indicar uma mulher para Presidência da República – Dilma Roussef em 2010, e ter deglutido o dissabor do desastre por ela proporcionado, no seu terceiro governo se recusa até mesmo nomear uma mulher para cargos de relevo, seja no seu governo ou no Poder Judiciário, agora, nem sequer cogitou passar o bastão para o seu vice Geraldo Alckmin, afagando a mulher que o conquistou ainda de dentro do cárcere.
Lula venceu Bolsonaro em 2022 por uma diferença de apenas 1,8%, e pode se atribuir a isso, sem pudor, ao fato de ter escolhido Alckmin para compor a chapa, dado o seu histórico equilibrado, seu carisma e sua excelente bagagem na política do Estado de São Paulo; assim como a maioria dos grandes quadros do momento, fora também citado na Operação Lava-Jato, mas com menor exposição, pôde se aproveitar do momento para repaginar sua carreira desgastada pelo seu antigo partido o PSDB, migrando para o PSB.
Durante a posse do Presidente do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, o Ministro Decano, Gilmar Mendes, proferiu discurso, destoando de sua costumeira verborreia e o que chamou a atenção foi a menção aos planos vitoriosos de dois estadistas – na visão de Gilmar: Fernando Henrique Cardoso e Lula, respectivamente, se referindo aos exitosos Plano Real e o Bolsa Família, mas o decano, em tom conciso, deixou de mencionar que o Bolsa Família fora idealizado pelo sociólogo Vilmar Faria, ex-assessor de FHC e brilhantemente comandado pela Ex-Primeira Dama, Ruth Cardoso, como um tópico do Comunidade Solidária, que visava atender as necessidades dos socialmente invisíveis. Sobre o comando de D. Ruth, como era carinhosamente conhecida, vieram o Bolsa Escola com anteparo do Ministério da Educação, que impôs contrapartidas para o recebimento de benefícios, mas ao fim do Governo FHC, e o consequente início do primeiro Governo Lula, o Comunidade Solidária acabou, e o Fome Zero foi criado como uma propaganda de um governo incipiente, que pouco mais tarde aglutinaria os elementos do Comunidade Solidária para o lançamento do Bolsa Família. Vale o realce de que o programa implementado na gestão FHC, beneficiou 13 milhões de pessoas, afora os mais de 1,5 mi de pessoas agraciadas com o Benefício de Prestação Continuada/LEI ORGÂNICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL (BPC/LOAS) , destinado a pessoas com deficiência. Só no primeiro mandado de Lula, o número de beneficiários do Bolsa Família alcançou o número de 45 milhões de pessoas – 11,1 milhões de famílias, sem contrapartidas, número mais que satisfatório para reelegê-lo em 2006.
Lula e Ortega não só se parecem no físico atarracado, além do vezo esquerdista autoritário eles têm em comum, a participação efetiva de suas esposas no poder, com a diferença de que na Nicarágua foi elaborada uma mudança na constituição, permitindo que sua vice na chapa seja a sua esposa, Rosário Murillo. Ortega, que como Lula, caça desafetos, promovendo interrupções de suas carreiras políticas ou os arrestando, empenha se em um regime inovador e inaceitável no século XXI, o Regime Papai/Mamãe, já que nada se compara a Nicarágua de Ortega a um reino encantado, mais uma coincidência. Aqui também, não somos um reino, muito menos encantado ou encantador, ao menos politicamente.
Não há nada de anormal, uma Primeira-Dama trabalhar em ações sociais, portanto é legítima a visita de Janja nos locais atingidos pelas tormentas no Rio Grande do Sul, a anomalia está no posicionamento. A função de Presidente na ausência do titular, é do vice, e somente ele tem ou teria a prerrogativa de comandar as ações, o que Alckimin o fez, enquanto a consorte de Lula se deleitava na Índia, em Cuba e nos Estados Unidos. A passagem de Janja pelo Rio Grande do Sul é intempestiva e por essa razão, contestada.
A Segunda-Dama, Lu Alckmin, enquanto Primeira-Dama do Estado de São Paulo, estado que Alckmin governou por quatro vezes, coordenou várias ações sociais, entre elas a Escola de Moda, Escola de Imagem Pessoal, e a de maior destaque, a Padaria Artesanal, um projeto vitorioso que consiste em ensinar panificação em comunidades carentes com método artesanal sem uso de conservantes, e que no ano de 2012, apresentou à colega Primeira-Dama do Canadá, Sharon Johnston, que levaria o projeto para a comunidade indígena em seu país.
A Ex-Primeira Minsitra da Nova Zelândia, Jacinda Ardem, enquanto participava da Assembleia Geral da ONU em 2018 em Nova Iorque, deixou sob os cuidados do marido Clarke Gayford, a filha do casal; Gayford utilizava um ambiente reservado na sede para trocar as fraldas da criança. Lógico que não se pode exigir o mesmo de Janja, e se for o caso de ela trocar as fraldas do seu digníssimo esposo, que o faça sem os holofotes.
Ouve se da mídia travestida de imprensa, a falácia de que se fosse o contrário, Lula em lugar de Primeiro-Cavalheiro, e Janja Presidente, as críticas seriam mais suaves, confesso que é um exercício difícil de assimilar, pois o queixume acerca do machismo ou do feminismo é mais pujante no campo esquerdista, no qual, integra o casal, e ofereço o exemplo da Ex-Primeira Ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher, casada com o bem-sucedido empresário Dennis Thatcher, com quem se aconselhava; Margaret Thatcher se consolidou como importante quadro político nos anos 1980, era uma liberal clássica, o Primeiro-Cavalheiro, tem sim, conforme o livro The Autobiography (A autobiografia), suas participações na administração pública, mas com discrição, sem atrair os louros de quaisquer conquistas, ao contrário do que se vê por aqui, e isso pode ser comprovado com uma frase marcante e reveladora de Margaret Thatcher: “Ele era um poço de conselhos e de comentários penetrantes. Mas ele guardava estes comentários para mim, em vez de compartilhá-los com o mundo de fora”. Ainda, sobre as relações conjugais de nossos representantes, gozamos hoje da presença do Senador Moro e sua esposa, a Deputada Rosângela Moro, que vêm se destacando sem interferências, e a mais recente boa nova, vinda de Curitiba, a predisposição do lançamento da candidatura de Fernanda Dallagnol, esposa do Ex-Deputado, Deltan Dallagnol, sumariamente cassado pelo regime arcaico de um país sem justiça, capitaneado por um casal de onde não se sabe quem é a cabeça ou quem é a cauda.
Desprezar o seu Vice-Presidente em favor de sua esposa, que não conquistou votos, é mais um movimento errático de Lula. Sabia se que a disputa presidencial em 2022 seria árdua, os dois candidatos que foram para o segundo turno – Lula e Bolsonaro se escolheram com a certeza de que venceriam, Alckmin foi a cereja do bolo da candidatura do PT, sem a sua presença na chapa não existiria terceiro mandato, e o respeito ao seu parceiro é mandatório; não considerar isto, beira o mau caratismo. Defendo a tese de que na política não existe traição, mas para que não se confunda, em uma relação duradoura, como uma chapa no exercício do mandato, há de se avaliar os riscos, portanto, Alckmin pode estar saindo menor na relação de momento ao atrelar sua biografia a de alguém com enorme ficha corrida que embora anulada por uma justiça comprada, não fora totalmente rasgada. Vale o registro de que Lula é um mentiroso contumaz no campo analógico, no campo digital, suas falácias não prosperam, e se hoje está presidente, isto se dá pelo fato, de que o povo escolheu conforme sua avaliação, se livrar de uma mal maior.
Consorte é uma expressão usada para designar a esposa de um monarca ou de quem detenha título honorífico, mas sem os mesmos direitos políticos, e o título, para além da licença poética, é uma provocação àqueles que normalizam a situação, não somos monarquias e não somos a Nicarágua, dois cenários distintos que Janja arremeda. Para azar do povo brasileiro, temos uma Presidente Consorte!