“Não vamos tentar consertar a culpa do passado vamos aceitar nossa responsabilidade pelo futuro”.
John F. Kennedy
A cassação sumária de Deltan Dallagnol, fez aflorar uma manifestação pública com pautas antigoverno e pró justiça. Com o sentimento de que não houve julgamento sadio no último dia 16 de maio, Deltan atraiu uma substancial multidão em Curitiba no último domingo. O ato voluntário da direita aqui chamada de direita lavajatista foi apenas o embrião para uma manifestação maior com força suficiente para se unir com a direita mais raivosa, digo a direita bolsonarista.
A militância esquerdista vive agora em uma zona de conforto, a mesma zona que o bolsonarismo ousa frequentar, e isso pode ser um enorme ganho para a direita moderada, que representa um terço do eleitorado, e sua luta primordial é tirar o poder judiciário da zona de conforto, os ultras, que lá permaneçam, porque quando estes ganham as ruas apresentando métodos rudimentares, o povo padece.
Em busca de se manter no protagonismo ameaçado na direita, o ex-presidente Jair Bolsonaro orienta a sua caterva a não aderir à manifestação, com a justificativa de que os lavajatistas não o apoiaram o suficiente durante a campanha presidencial e que o interesse maior, no momento é focar na CPMI do 8 de janeiro, em que sugere que seus apaniguados farão boa performance.
A divisão dentro do mesmo espectro não é novidade, sobretudo, no curto vácuo de poder permitido pela dinâmica política, e a partir dessa divisão, se enseja a terceira via, o que favorece o crescimento da ala menos radical, ora liderada pelo ex-deputado federal Deltan Dallagnol, abatido pelo famigerado TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
O histórico de manifestações do Governo Bolsonaro não é animador, houve movimentos nos feriados de 7 de Setembro, com ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal) com posterior pedido de desculpas, além de um enfadonho acampamento nas portas dos quartéis do Exército Brasileiro após a perda da reeleição. Durante o acampamento, uma ópera bufona: o Hino Nacional cantado para pneus, as orações nos muros dos quartéis, o caminhão bomba que não explodiu, a minuta do golpe que não chegou a ser editada e assinada, a fuga do líder e a tentativa malfadada de golpe de estado num domingo de verão em uma capital esvaziada, sem a presença do Presidente da República. Em nada acertou o líder da ultra direita, que agora prioriza a CPMI com a presença dos Senadores Magno Malta, Marcos do Val e dos Deputados Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira, o que diminui as chances de êxito na comissão, dado o repertório histriônico do quarteto trapalhão. Para fazer justiça, enquanto presidente, Bolsonaro reunia motociclistas para movimentar suas bases nas principais cidades do país, sem um tema digno a defender, mas pelo apoio ao capitão. Como oposição, cambaleia e propõe uma CPI para cada circunstância, tal como um desfile de carnaval tendo a comissão, como uma escola de samba, apresentando alegorias diversas. O Bolsonarismo não agregaria em nada a manifestação do dia 04 de junho, não há do que se lamentar, pois é a oportunidade de a direita moderada se posicionar, se deslocando definitivamente do Bolsonarismo trôpego.
Enquanto a direita não se entende, o governo Lula tem encontrado dificuldades em vários campos, não tem sido fácil a negociação com o Congresso Nacional; as pautas e as reformas apresentadas têm sido imiscuídas pelo legislativo, como é o caso do arcabouço fiscal, agora chamado de Regime Fiscal Sustentável, e a desidratação dos ministérios do Meio Ambiente e dos Povos Indígenas, depreciando o bom relacionamento com as ministras Marina Silva e Sônia Guajajara, respectivamente, em função da votação das Medidas Provisórias acerca da reestruturação ministerial.
A tentativa tresloucada de Lula em promover a paz entre Rússia e Ucrânia é mais uma tragicomédia, basta ver como o atual mandatário fugiu de Zelenski na reunião do G7 no Japão, em que Lula representou o Brasil como convidado, um resumo do primo pobre convidado para a festa do primo rico, que nada favoreceu em seu intento. Já no Brasil, Lula se reuniu açodadamente com Alckmin na condição de Ministro do Comércio e Indústria e com representantes do setor automobilístico para propor a construção de carros populares na ordem de 60 mil reais a unidade; algo inviável, a começar pelo ganho médio das classes C e D, pela qualidade dos veículos e a crise já declarada por membros do governo, que acusam insegurança alimentar, e mais; não há um plano definido para o enunciado, mas há a clara intenção de agradar o setor automotivo com desonerações fiscais, um projeto para além de errático, viciado e fracassado, como vimos nos governos anteriores de Lula e Dilma Roussef.
Ainda sobre as trapalhadas do atual governante, há em curso, o projeto de vingança que tem em seu próximo ato, a indicação de seu advogado como Ministro do STF; momento certo para em ambiente também certo, o Senado, barrar o nome de Cristiano Zanin, mas o vezo garantista do advogado é de lavar os olhos de senadores encalacrados com a justiça. O garantismo supera a avaliação do currículo raso do causídico, sem desmerecer a qualidade como criminalista, que livrou da cadeia seu cliente mais famoso, mesmo com robusteza de provas. O impedimento ao seu nome, é o papel que se espera de uma oposição minimamente séria, ainda que dividida, diante de um governante desgastado, decadente e vingativo, tão inoperante como o antecessor.
Percebe se que a semelhança entre os adeptos de Lula e Bolsonaro é maior do que concebe nosso ilusório conhecimento dos fatos; apostam no populismo barato, guardam reservada idolatria e assumem um troglodismo simbiótico, quando se nivelam dentro ou fora de suas cavernas, denotando a teoria da ferradura do escritor francês Jean-Pierre Fayet, insinuando que dois espectros ideológicos fundamentalistas são idênticos, quando aferidos na base.
A manifestação prevista para 04 de junho é o início de uma era, e não se pode esperar grandes louros logo na primeira empreitada; com a recusa do bolsonarismo raiz em aderir ao movimento engrossado por MBL (Movimento Brasil Livre) e Vem Pra Rua, o bloco lavajatista terá sua identidade reconhecida como a centro direita que dominará o campo da terceira via. Vale dizer que é uma chance e precisa ser bem aproveitada, o processo pelo qual passamos, é de depuração, de separar os homens dos meninos, e tempestivamente, haverá o entendimento de que há um Brasil para reconstruir, sem a necessidade de reescrever a história, há capítulos no horizonte a serem preenchidos, mas com ética, moral, respeito e a verdadeira justiça.
O asseveramento da direita moderada significará o fim da polarização que imbeciliza, e no dia 04 de junho, com a certeza de que as cavernas acolherão bolsonaristas e petistas, um importante passo será dado rumo ao futuro!