
“A esperança constante chama se confiança… O desespero constante chama se desconfiança.”
Thomas Hobbes
Moedas comuns não são novidades, na Europa, desde 1999, circula o euro; há também casos em que países de moedas desvalorizadas equiparam suas unidades monetárias com outra mais forte, relegando a uma formalidade decorativa, como no Panamá, que alinhou o balboa, sua moeda original ao dólar em 1903, e não mais a imprime, as poucas cédulas ou moedas restantes são para colecionadores e numismatas.
No Mercado Comum Europeu, 20 das 27 nações signatárias adotaram ao euro, mas sem afetar a responsabilidade tributária de cada país. Quando se compra em países da zona do euro, a nota ou o cupom fiscal descrimina a moeda original, cotizado ali os impostos de consumo, como exemplo, se comprarmos na França, na nota ou no cupom fiscal, estará grafado em euro, convertido para o franco, com a devida tributação descontada. O sucesso do euro se deu pelo facilitador em negócios e no trânsito de turistas, dada à coesão do bloco, sem que isso interfira na soberania financeira de cada país. Na Comunidade Central Africana, opera o CAF (Communauté Financière d’Afrique), unidade monetária comum para efeito de comercialização macro regional, compreendendo oito países e sediada em Dacar, Senegal.

Quem jogou Banco Imobiliário, brinquedo de caráter pedagógico de sucesso entre os adolescentes na década de 1980, jamais ousou usar as cédulas em miniatura para comprar no mercado, aquele dinheiro é de brinquedo, e findado o jogo, é acondicionado em uma caixa até a próxima rodada. O jogo consiste em não falir e adquirir fortuna; ganha o mais “rico”, mas é apenas um jogo. A moeda única aventada por Lula e Alberto Fernandez, assemelha ao jogo porque será usada em um mercado exclusivo, a começar por Brasil e Argentina, e gradativamente, alcançando o Mercosul. A moeda não será palpável, não a colocaremos em nossas carteiras ou em contas no banco, não pagaremos ou receberemos nada com ela.
O tema moeda unificada é uma cortina de fumaça, e tem o propósito de encobrir o intento de Lula e Fernandez, o financiamento de um gasoduto na Argentina com recursos do BNDES, o que divide o povo brasileiro, que avista o retorno de uma política desgastada de mercado externo que já nos causou rombos homéricos.
Para além dos fatores políticos, há a escancarada corrupção, marcante durante o período em que a Operação Lava Jato atuou bravamente em vários países da América do Sul, encontrando casos de desvios de dinheiro para pagamentos de propinas em obras de grande valor.
A atual conjuntura nos apresenta o presidente argentino, Fernandez que vem fracassando na condução da economia do seu país; o presidente brasileiro, Lula, arvorado em seu projeto de vingança, insistindo em não deixar o palanque e os respectivos ministros da Fazenda, Sergio Massa e Fernando Haddad que não gozam do prestígio do mercado por não pertencerem ao universo financeiro, entretanto, Alberto Fernandez cumpriu o protocolo ignorado pelo colega brasileiro, Lula, que em uma frente ampla de sucesso, preteriu outros nomes de maior relevância para o mercado, não só regional, mas de alcance mundial, como Armínio Fraga ou Henrique Meirelles.
O governante brasileiro tem habilidade para lidar com a mídia, sabe como poucos manipulá la e se utiliza da agenda setting para promover assuntos secundários, abrindo lhe caminho para avançar com suas propostas antipáticas. Agenda Setting é uma hipótese, de que a mídia ocupa a maior parte do seu espaço com um determinado assunto que inevitavelmente irá interessar aos consumidores de informação, dando a ela o fim que se espera. Em tempos de internet, informação gratuita e a necessidade de leitura fácil, no máximo se cria desinformações e uma chuva de memes, pelo menos, pode se dizer que na hipótese de agendamento de mídia, a estratégia é certeira, e conseguiu o que se almejava. A moeda unificada domina o imaginário de leigos e os debates entre os especialistas.
A pretensa moeda comunitária, se não é uma estupidez ideológica que nos levará do nada a lugar algum, é um instrumento de via rápida viável, mas sob a compreendida desconfiança, dado o histórico de seus idealizadores, ao atual momento e a credibilidade dos atores envolvidos. A ideia da moeda unificada para fluxo exclusivo de negociações no bloco é uma ótima sacada, o problema é quem irá executá-la.