
O apoio de Sergio Moro ao atual presidente, é a busca por lastro entre seus novos pares. Moro não é mais juiz, muito menos ministro de Estado, mas um Senador eleito que irá legislar em ambiente cercado de desafeiçoados. Bolsonaro pode perder a eleição, mas o bolsonarismo há de vaguear ainda por no mínimo, quatro anos na Praça dos Três Poderes.
Depois de ver os criadores do Plano Real, operadores da Lava Jato e a intelligentsia apoiando Lula, percebi que não é um apoio convicto, mas a busca por uma saída de emergência, uma segurança diante de um iminente naufrágio em eventual reeleição de Jair Bolsonaro.
O ano era 1884; quatro tripulantes em um iate rumavam da Inglaterra para a Austrália, o Comandante Thomas Dudley, o seu imediato Edward Stephens, o marinheiro Ned Brooks e o camareiro Richard Parker, de apenas 17 anos, órfão e sem com quem se o ocupar. Ocupavam o iate Mignonette, comprado por um abastado empresário australiano que pediu que o entregasse em seu país. Durante um naufrágio na costa leste da África, os quatro pularam em um bote rudimentar, deixando para trás, o alimento necessário para até o fim da viagem. Com fome e sede, a tripulação resolveu sacrificar um dos seus para lhes servir de alimento. O escolhido para saciar o apetite dos colegas? Richard Parker! Era o mais novo dos tripulantes que por ser o único não arrimo de família e por ter ingerido água contaminada, não gozava de boa saúde. Depois de alimentados, foram salvos pela embarcação alemã “Motezuma” e levaram com reverência os restos mortais do indivíduo que com eles iniciou a fatídica viagem. Os tripulantes soaram a história de canibalismo até chegar às autoridades policiais.
A história nefasta é verídica e maiores detalhes são facilmente encontrados nas plataformas de busca, como a “Tripulação Mignonette” e reflete a necessidade, ao menos aqui de ser prudente ao adentrar a embarcação do capitão que faz de tudo para se segurar no comando. Em tempo, o comandante do Migononette, Thomas Dudley fora absolvido da prática de canibalismo, porque ele só assistiu.
Desde a ascensão de Bolsonaro em 2018 muitos “Parker´s” já foram consumidos pela tripulação bolsonarista, desde Bebiano, passando por Daniel Silveira – que fora induzido a disputar o Senado, mas sem qualquer condição – apesar de indultado, Incitatus não ganhou! Por último, Roberto Jefferson, o banquete da vez.
O que temos para o segundo turno são dois caminhos para escolher um, caminho este que nos levará ao mesmo destino, e as nossas escolhas, se conscientes, definirão se a viagem será mais ou menos confortável. Em caso de iminente naufrágio, quem será o marujo escolhido para alimentar a tripulação bolsonarista?
Provocar o bem estar a um número maior de pessoas, é a síntese do utilitarismo, ou seja, o voto no “menos pior” é uma aparente apreciação de que algo irá corrigir os rumos para a maioria da população, mas a única certeza, é que a disputa está dividida, e as propostas não são postas à mesa.
Caso se confirme a vitória de Lula, Sergio Moro fará forte oposição, tendo ao seu lado, figuras com a mesma linha ideológica. A escolha de Moro não foi unanimidade entre seus adeptos, foi ridicularizada por boa parte do bolsonarismo e assustou ao PT, sobretudo a Lula – a prova de que Moro avançou em mais uma casa no jogo eleitoral, mas Moro erra ao afirmar que ele e Bolsonaro têm inimigos em comum, Bolsonaro e Lula não são inimigos, Lula estava em situação adversa, condenado e preso em regime fechado, até que os nomeados do presidente facilitaram sua candidatura. Vocês se lembram de quem foi o voto de minerva que liberou Lula pra se candidatar? Lula era teoricamente o único candidato que Bolsonaro venceria, mas isso há mais de dois anos. É, portanto, uma rivalidade sintética e momentânea, e creio que até mesmo Moro sabe que na primeira oportunidade será traído por Bolsonaro.
Esperar 2026 para reparar um estrago que aumenta a cada ano é o caminho dos descontentes, mas não há o que se fazer. Se em 2022 a terceira via foi natimorta, para 2026, é preciso fazer um esforço hercúleo para encontrar a melhor solução neste campo. Se em 2022, Moro liderou a convocatória, para 2026, ele provavelmente não mais será esta via, mas uma opção – e para que isso se confirme, é necessário produzir o que ele bem sabe, com a perspicácia costumeira de quem combate a corrupção, manter distância segura da seita bolsonarista e o mais importante, a partir de 2023, admitir que, independente de quem logre a vitória, os seus inimigos estarão no poder, e é no campo do adversário, que se vence as batalhas!