“No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise.”
Dante Alighieri
A Rússia é um país com muitos atrativos estranhos à cultura ocidental, de território gigantesco, situada no leste europeu, com importância ímpar entre os países adjacentes, goza de liderança, desde a dissolução do bloco soviético. Entre os seus atrativos culturais, a troika russa desperta mais curiosidade que qualquer outro elemento pitoresco, por conta de sua funcionalidade e por sua beleza plástica.
A Troika Russa consiste em um conjunto de três cavalos que puxam um trenó: o cavalo do centro, sempre mirando para frente, o da direita inclinado para a direita, enquanto o da esquerda inclinado para a esquerda; os cavalos dos flancos nunca olham para frente. Para que isso seja possível, é necessário amarrar a pata esquerda do cavalo à direita, e amarrar a pata direita do cavalo à esquerda. O equilíbrio encontrando na composição da troika russa proporcionou um eficiente serviço de entregas dos correios, em época em que não se dispunha de veículos automotivos. A troika russa é a representação do equilíbrio, mas para conduzí la é necessário um condutor igualmente equilibrado, não um pato manco, como o que está no poder há mais de 20 anos, e sem ter mais o que fazer, se ocupa em jogar bombas no quintal do vizinho, aqui uma clara alusão à Putin, em deliberada analogia.
A Rússia deixou de ser um retrato de ambiente aprazível; com o peso de um líder insano que no mesmo dia em que alinhava um acordo, acossado pelas sanções até aqui aplicadas, ameaça seu oponente com armas nucleares.
Como é de praxe em conflitos ainda em estágio inicial, as sanções econômicas espocam e podem culminar em crise econômica global, mas a adesão aos cerceamentos é algo que se impõe, e em tese, deverão permanecer independente de qual seja os desdobramentos dos encontros em direção a um cessar fogo, pelo menos enquanto durar o Putinismo.
No Brasil reza a tradição pela neutralidade em referência a confrontos bélicos entre nações, o que nos coloca em um escalão de nação bem resolvida no quesito, mas em caso de invasão desabrida, não é nada razoável confundir neutralidade com independência ou confundir a soberania nacional com desejos do governante.
No momento, a neutralidade confere indiretamente apoio à invasão, e Bolsonaro, para justificar sua intempestiva visita à Rússia, quando a pretexto de comprar fertilizantes, ofereceu solidariedade à Putin, mas sem deixar para trás o discurso de quem fora tratar sobre a paz no Leste Europeu, mesmo após oferecer publicamente, sem titubeios, solidariedade, inclusive no quesito defesa, o que se pressupõe ajuda militar. Confuso, não? Mas esta é a tônica do atual governo brasileiro; confundir é melhor que explicar!
“O Brasil não está neutro. O Brasil deixou muito claro que ele respeita a soberania da Ucrânia. Então, o Brasil não concorda com uma invasão do território ucraniano. Isso é uma realidade”. A fala é de Hamilton Mourão e irritou sobremaneira o Presidente da República, que teima em não condenar a invasão. Mourão é General da reserva do Exército Brasileiro, tendo atuado em missão de paz em Angola, além de adido militar na Venezuela, portanto tem expertise no assunto para exprimir sua opinião, sobretudo durante o silêncio do titular do Palácio do Planalto. O Brasil condena a invasão da Rússia na Ucrânia, mas o presidente Bolsonaro se vê desencorajado a assumir tal posicionamento, em parte para contrapor os seus adversários políticos, em que pese o PT apresente posicionamento ambíguo em relação ao conflito, inclusive emitindo nota favorável à Rússia no Senado Federal.
A postura do Presidente Bolsonaro também é digna de um pato manco, aquele que não mais governa, estando em fim de mandato, perdeu a perspectiva de continuidade no poder, não pela governabilidade – tem como lastro no legislativo, o Centrão – mas por sua própria tropeguidão.
Para além do isolacionismo iniciado no Brasil, ainda no início do governo, o alinhamento de Bolsonaro ao Putinismo nos coloca na mesma trincheira que Venezuela, China, Nicarágua, Cuba, Síria e Belarus.
Brasil e Rússia são comandados por patos mancos, o daqui, profere palavras desconexas em viagem de veraneio onde promove uma bufonaria para seus devotos, sem condenar os atos hostis do pato manco russo, enquanto em todo o mundo o povo emite vozes de paz pela Ucrânia.
É preciso conter Putin, é preciso acolher os refugiados, abrandar a diáspora ucraniana, é preciso, em nome do povo brasileiro, se desculpar, não apenas com o povo ucraniano, mas com o mundo que assiste estupefato aos atos de um desequilibrado que inspira outro pato manco.

Foto: Russia Beyond