O VOTO IMPRESSO NÃO ESTANCA A CORRUPÇÃO SISTÊMICA

A principal bandeira de Bolsonaro durante campanha eleitoral em 2018 foi o combate à corrupção, na esteira do relevante trabalho da Operação Lava Jato. Importante destacar que a Operação desbaratou uma cadeia de corrupção desenvolvida durante os governos do PT, e por essa razão, a maioria dos envolvidos são ou eram ligados ao partido.

Ao assumir o governo, já surpreendido com as investigações de peculato de um dos seus filhos, Bolsonaro rasgou a primeira página daquele seria um importante capítulo da nossa história. O combate à corrupção fora relegado a proteger sua prole, mas restava ainda a esperança de que algo de novo nos seria entregue. Sobre proteger seus filhos, não chega a ser um despropósito, a despeito de um ato não republicano, ali figurava a imagem de homem cioso de sua família, portanto, Bolsonaro ganhou uma boa dose de tolerância.

Enfrentar os barões da corrupção não é tarefa fácil para quem ousa corrigir o mal feito. O senador Alessandro Vieira (CIDADANIA/SE), hoje expoente no Senado Federal, iluminado pelos holofotes da CPI da Covid, ocupou o Comando da Polícia Civil em seu estado, mas fora exonerado em 2017, quando começou processos que levariam corruptos poderosos à prisão, apenas uma amostra do que foi o fim da Lava Jato.

Os mais de 57 milhões de votos é um número nem tanto expressivo, mas legítimo. A trupe bolsonarista se vangloria do valor, enquanto seu eleitorado inicial não se mostra assim tão fiel. Segundo o IPEC (Inteligência em Pesquisa e Consultoria), Bolsonaro perdeu 53% dos votos, vislumbrando a próxima eleição, Bolsonaro teria hoje, aproximadamente, a ordem de 30 milhões de votos, e na toada que se segue, dificilmente se assegurará no segundo turno.

A polarização Lula/Bolsonaro não é genuína, Bolsonaro sempre polarizou com o PT e a esquerda a quem atribui como comunista, e quando atraiu Lula para o seu campo, parecia desconhecer sua força política e o apoio imoral e arbitrário de membros da Suprema Corte.

Há uma disputa deliberada, entre ambos os governos. Lula não inventou a corrupção, mas dela e por ela, se notabilizou, enquanto o governo Bolsonaro, ainda que com volume ínfimo, contribuiu para a morte de centenas de milhares de brasileiros que angustiados aguardavam por vacinas, que mais tarde fora se saber das transações corruptas que as envolviam.

Lula, pré-candidato favorito ao próximo pleito, não tem compromisso com o povo brasileiro, seja seu eleitor ou não, ao acusar fortemente o descaso de Bolsonaro à frente do Governo Federal, e não apoiar o impeachment. Jactando se de ser o homem público melhor avaliado em pesquisas, teme um concorrente maior em 2022. Lula goza de muito prestígio na esquerda brasileira, e basta o seu aval para o andamento de apenas um de 123 pedidos. Há entre os polos, os entusiastas pela terceira via, mesmo não havendo, por ora, um nome de consenso, mas Lula não quer enfrentá-la.

Ciro Gomes, em voo solo, vem exercendo açodadamente sua campanha capitaneada por João Santana que repaginou a figura Ciro, mas parece ainda incapaz de controlar seus impulsos.

Luís Henrique Mandetta, que até o advento do atual governo era um ilustre desconhecido, se apresenta como o aglutinador da via que se espera.

No PSDB, há uma disputa interna entre Dória, Tasso Jereissatti e Eduardo Leite.

Os quadros elencados possuem características distintas das de Bolsonaro e Lula, mas enquanto ainda se discute o melhor, uma parcela substancial dos pretensos eleitores da terceira via, aguarda ansiosamente pela candidatura de Sérgio Moro – muito em razão de sua bandeira anticorrupção – uma das causas de ansiedade da parcela indignada, que espera por uma resposta positiva e se candidate em 2022.

Com o avanço da CPI da Covid, o Governo vem perdendo importantes batalhas, a CPI que fora instaurada para averiguar questões negligenciais no combate à pandemia, encontrou nos últimos dias, fortes indícios de corrupção pertinentes à compra de vacinas da Covaxin e AstraZeneca, envolvendo inclusive, empresas sem estrutura para tal operação, sendo uma delas, instalada em paraíso fiscal. Com isso, Bolsonaro, desesperado, tendo uma ormetá * a seu dispor, reacende a cantilena do voto auditável, já percebendo o fracasso retumbante nas próximas eleições.

As urnas eletrônicas foram instituídas no Brasil 1996. Outros países as usaram por um período, entre os quais, Holanda, Alemanha e México, mas as aboliram dos seus sistemas eleitorais, a fim de resguardar a segurança na apuração dos votos. No Brasil, de dimensão continental, as urnas eletrônicas foram dádivas para uma população espalhada que pode acompanhar até o fim da apuração, invariavelmente no mesmo dia. É um sucesso! Afirmo sem medo de errar que a única apuração que causou celeuma desde então, foi a da eleição presidencial 2014, no segundo turno, sem nada ter que ver com as urnas, mas pela falta de transparência de quem conduziu a apuração.

A lei do voto auditável já foi votada e vencedora em 2018, mas barrada pelo STF, porque naquela época, teria um custo de 1,8 bi de reais, valor atualizado, de 2,0 bi de reais, para que se ponham em prática, as impressoras.  A propósito, o autor dessa lei, é Jair Bolsonaro, que enquanto deputado apresentou 171 projetos, tendo apenas dois aprovados, um deles, este que agora volta ao centro do debate.

Não podemos deixar de reconhecer que as urnas podem ser problemas eventualmente, mas seria impossível votar e aprovar essa mudança em tão pouco tempo; nada que seja inerente à lei das eleições poderá ser alterado no prazo de um ano da próxima, portanto, teríamos apenas três meses para a consumação da lei.

Ainda sobre a apuração das eleições, não há nada que confirme que a contenda não se perpetue, estaríamos rompendo uma tradição, para ir de encontro a outra, pois um eleitor poderá apresentar uma queixa infundada em sua seção, com o fito exclusivo de causar balbúrdia, o que não se pode desprezar; enfim, a lei do voto auditável é tão ou mais improvável que o impeachement, e resta sangrar com o governo, por mero capricho de atores políticos sejam em fim de mandato ou final de carreira.

Estamos a 15 meses das próximas eleições e até lá, viveremos de incertezas. Somente em agosto de 2022 o funil irá se estreitar, tempo suficiente para que avaliemos as peças mais nobres do tabuleiro, não somente para presidente e governador. É imperioso que avaliemos as figuras que irão concorrer aos cargos vacantes no legislativo, caso queiramos mesmo mudanças substanciais no cenário político, e um país com o mínimo possível de corrupção, com ou sei o voto impresso.

*OrmetáCódigo de honra da máfia italiana, que preza pelo silêncio em prol da irmandade mafiosa. Para além da sonegação de informações que subsidiaria as investigações, não se envida esforços para confundí-las, usando membros de menor expressão para tal. O exemplo mais recente foi a presença desastrosa de Dominguetti na 30ª sessão da CPI da Covid. A ruptura da ormetá pode ser danosa ao delator, conforme o código.

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