OS MITOS NÃO EXISTEM

Acossado pelas pesquisas que apontam o avanço de Lula nas eleições de 2022, Bolsonaro parece sem rumo, cada dia mais histriônico, sem apresentar avanços, e coincidentemente vê seu nome envolvido em corrupção no escândalo Covaxin. Lula, na última pesquisa de intenção de votos (IPEC), aparece com 49% contra 23% de Bolsonaro, sugestionando uma vitória no primeiro turno, considerando a margem de erro de 3%. A polarização estimulada por ambos não dá espaço para uma terceira opção, por ora denominada terceira via, portanto, caso Bolsonaro termine o mandato, é mandatório que tenhamos esse nome que venha suprir a taxa de dispersão. Lula é uma válvula de escape para quem está frustrado com Bolsonaro, que é a opção do movimento anti-pt. Nunca foi tão fácil captar os votos dos descontentes, basta a presença de um quadro dotado de muita seriedade para liderar o levante e destruir o cenário desgastado do presidencialismo de coalizão.

Lula e Dilma Rousseff, dignos representantes do governo na era esquerdista, conviveram com a corrupção arraigada no Brasil, mantendo o discurso em contrário, à custa do péssimo momento do impedido ex-presidente Fernando Collor de Mello. A corrupção no governo “collorido” deu legitimidade ao seu primeiro antagonista, Lula do PT. FHC conduziu com alguns indícios de corrupção, stricto sensu, no que tange à PEC da reeleição. Lula em dois mandatos, não foi um desastre, mas absorveu a corrupção como mola propulsora, corrupção tão bem armada, que não sucumbiu durante os desdobramentos do mensalão. Dilma Rousseff, não resistiu à pedalada fiscal. Michel Temer resistiu bravamente à impopularidade, e passou o bastão ao “mito” que hoje, tem como principal plataforma, a verborreia contida em um vocabulário chulo de mais ou menos trinta palavras que usa contra todos os que espicaçam aos seus desmandos.

Em 2014, muito por conta das respostas ríspidas, enquanto confrontado, mormente por sua ideologia, Jair Bolsonaro ganhou o epíteto de Mito. Assim é ovacionado por seu auditório em seus périplos pelo Brasil. As respostas continuam ríspidas, sobretudo contra jornalistas do sexo feminino, e os veículos de comunicação perceberam a fraqueza do mito tupiniquim e desafiam-no ao escalar mulheres para confrontá-lo. O mito não gosta de responder sobre a sua gestão ou não sabe muito do que acontece no Palácio do Planalto, e isso provoca os instintos mais cruéis do principal personagem da mitologia brasileira. A impostura do presidente é nítida desde que incorporou o personagem, e não há em quem se espelhar, embora possa se conflitar com o Rei Midas, aquele em que tudo que toca vira ouro, Bolsonaro tem o dom de em que tudo o que toca vira qualquer coisa que cheira muito mal.

A mitologia é um conjunto de fábulas, de heróis, guerreiros e deuses, cujas histórias são contadas após o seu término, o que justifica a imagem do mito mais famoso do Brasil; um burro que fala, um burro que tem medo de mulheres com microfone, um burro que pilota motos e encanta outros pilotos, um burro que multiplica o número das aglomerações em seu favor e desmerece o contrário, resumindo, temos em nossa mitologia, um burro de faixa presidencial  em corpo humano, portanto a história que presenciamos está perto do fim, e dela surgem figuras secundárias que se tornarão importantes na bibliografia do nosso folclore, entre elas, a história do Ministro Posto de Gasolina; o Homem Banana (o chapeiro que queria ser embaixador); Karlucho, o homem de fala estranha que moía reputações; Pazuello, o General que negou oxigênio a um povo que morria asfixiado; o astronauta que vendia travesseiros…  Miranda, o homem que derrubou a república.

Na 27ª Sessão da CPI da Covid, o Deputado Luis Miranda acompanhou o irmão, o servidor público Luís Ricardo e apresentou denúncia gravosa contra o Presidente da República e ao líder do Governo na Câmara dos Deputados, Deputado Ricardo Barros (PP/PR). Há fortes indícios de prevaricação do primeiro, e ato de corrupção do segundo. Miranda alertou ao Presidente sobre os fatos, mas Bolsonaro não levou a informação à investigação mais profunda, mesmo afirmando que levaria para a Polícia Federal, o que já se confirmou não ter acontecido.  Enquanto ocorriam fatos nada republicanos, o povo padecia por falta de vacinas, mesmo tendo outras cinco devidamente aprovadas e ofertadas por valores mais baixos, o que dá ao depoente, a credibilidade que por conta de sua vida pregressa, lhe faltou em algum momento e ainda é contestada.

A deputada Federal Bia kicis (PSL/DF), no dia 26 de junho, saudou sua claque com um “Bom dia, a república não caiu!”. Ora, Deputada, a república é cadente desde que os atos não republicanos são meios contumazes de direcionamento da nação por vários ex-presidentes. Há que se visitar o passado para refrigério da memória de muitos e para o conhecimento de outros tantos.  Em 1993, durante a CPI dos Anões do Orçamento, surgiram vagas denúncias contra o ex Ministro da Casa Civil, Henrique Hargreaves, homem de confiança do então Presidente da República Itamar Franco. Ato contínuo, Hargreaves pediu exoneração do cargo para que se aprofundassem as investigações sem que sua interferência fosse conjecturada e prontamente aceita pelo então presidente. Após três meses, Hargreaves voltou ao posto, sem nada que o desabonasse. Talvez este seja o último explícito lampejo de decência no cenário político nacional, noves fora, os atos anticorrupção, dirigidos pelo Ministério Público.

A república mais parece um Império regido por um tresloucado que brinca de quartel, e ainda que legitimamente, no voto, alçou dois dos filhos às principais esferas do poder, e mantém outro filho como seu principal ajudante de ordem, mesmo sendo vereador na cidade do Rio de Janeiro; que na primeira ameaça de queda de popularidade, se uniu a um bloco conhecidamente tóxico à nossa política, o Centrão, que em troca de emendas e cargos, lhe confere o mínimo de governabilidade.

Há a clara intenção de perpetuação no poder pelo clã, que por sorte, em pouco tempo já se mostrou incapaz, e alguns membros apresentam indícios de cometimento de atos de corrupção sistêmica, desde suas bases.

Uma escolha muito difícil é um termo que virou meme. De um lado, havia um insolente deputado direitista do baixo clero, especialista em reduzir o debate a gritos histéricos, de outro lado, um experiente político de esquerda, ex-prefeito da maior cidade do país, ex-ministro da educação, um professor, mas naquele momento, pesava contra ele a peregrinação semanal à cadeia em Curitiba para tomar as bênçãos de seu suserano. No segundo turno das eleições de 2018, eram as opções, e não há quem possa contestar, independentemente da vertente que defenda.

Acreditar que o atual panteão do Estado irá afastar os envolvidos em atitudes ilícitas, mesmo que sejam meras suspeitas é o mesmo que acreditar em mitos e mitos, não existem!

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