Durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Roussef, em 2016, um termo irônico ganhou espaço nos palanques e na inveterada e defensora mídia esquerdista; diziam estarmos vivendo o terceiro turno das eleições de 2014, que desde sua apuração, fora contestada pelo candidato derrotado, Aécio Neves, que inclusive solicitou recontagem dos votos, o que fora indeferido de pronto, pelo então presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Ministro Dias Toffoli, por acaso um Ministro de vestes vermelhas sob a toga, e com uma estrela pulsando em seu peito.
No período que se sucedeu o curto segundo mandato de Dilma Rousseff, sob a égide de Michel Temer, um vácuo no poder era notório, e quem se aproveitou disso, foi Jair Messias Bolsonaro, que com discursos histriônicos, travou embates calorosos contra membros do PT e adjacências. Vociferou discursos rasos contra uma fantasiosa ameaça comunista, falou em metralhar petralhas (epíteto jocoso conferido a militantes petistas). A postura de Jair Bolsonaro atraiu um séquito de novos militantes, de uma direita raivosa, que fiava em um salvador da pátria, que iria desmontar uma elite política, dando voz a novos seguimentos, como o retorno dos militares ao poder – já são mais de seis mil militares nos três primeiros escalões do Governo Federal – aos caminhoneiros, que após parar o Brasil por onze dias em 2018, ganhou pujança no clã Bolsonaro, além dos adeptos do armamentismo deliberado, transformando, Jair Bolsonaro em Presidente da República.
Com o advento do Novo Coronavírus em 2020, como pandemia declarada pela OMS (Organização Mundial de Saúde), o governo Bolsonaro, tem a seu favor, apenas o brado que deu origem a seu nome como postulante ao cargo de maior autoridade da nação, o terror contra seus oponentes, Bolsonaro está em campanha permanente, o que já é dito há muito por muitos, corroborando a terceira via, outrora apregoada.
A votação no STF (Supremo Tribunal Federal), que resgatou de vez, os direitos políticos do ex-presidente Lula, com placar folgado (8×3), deu ao povo a impressão de que Lula ainda é forte politicamente, o próprio pode assim imaginar, mas há uma força extrassomática para coloca-lo como antagonista ao atual Presidente da República, o inepto Jair Bolsonaro, que apesar das trapalhadas contumazes desde a posse em 1º de janeiro de 2019 até o presente momento, não enverga, e a qualquer ameaça de impeachment, discursa em seu “chiqueirinho” no Palácio da Alvorada, com mensagens nem sempre subliminares de resistência ao intento de deposição, citando, até que só Deus o tira da cadeira presidencial.
As mesmas forças que ressuscitaram Lula tentam minar a força de Sérgio Moro, o então juiz que o julgou e que proferiu sua primeira condenação. Além de juiz de piso, e que nessa condição, ganhou merecida notoriedade em todo o mundo, Moro emprestou sua colaboração ao antes acreditado e incipiente governo, até ser traído pelo chefe, que não se fez de rogado ao jogá-lo no limbo da ridicularidade. Não por acaso, Moro é sempre cotado a presidenciável, e figura em todas as pesquisas de intenção de votos, como um expoente a ser considerado; ato contínuo, o caminho se pavimenta para a luta do mal contra a coisa ruim, imprimindo na mente dos partidários do ex-presidente que Bolsonaro é o bode na sala de Lula.
O bode na sala é uma fábula com diversas versões, umas das quais, a que mais me identifico, relata a história de um judeu, pai de filhos pequenos, cuja esposa, muito atarefada, considerava parcas as ajudas para a manutenção do lar. O pai atordoado pelas constantes reclamações e pelos ruídos ensurdecedores das crianças, fora tomar uma opinião com o rabino, que lhe ofereceu uma ideia, no mínimo, sue gêneris:
– Coloque um bode no centro da sala principal da sua casa, onde a família mais se reúne, e retorne em uma semana.
Assim, o desenchavido o fez. Colocou o bode na sala, e além do barulho que se multiplicou, o cheiro forte tomou conta do lugar, e claro, o animal atravancou o espaço. Uma semana após, conforme combinado, o homem lamuriou ainda com mais veemência:
– Rabi, a minha vida virou um inferno, as coisas pioraram, acredito que sua ideia não tenha sido de grande valia para mim e para minha família.
O rabino, novamente lhe sugeriu, desta feita, com uma proposta bem mais simples:
– Retire o bode da sala, desinfete o ambiente, areje até que saia o odor, e retorne em uma semana.
Depois de uma semana, o homem retornou ao rabino com o a fisionomia descansada e com brilho nos olhos:
– Obrigado, Rabi! As coisas, enfim, voltaram ao normal em casa.
A guerra declarada entre as militâncias, tanto petistas como bolsonaristas, gerou uma nova alcunha, o “bolsopetismo”, a junção das duas vertentes, dadas as semelhanças entre seus figurantes, que a todo instante cobram por provas, transferem a culpa de seus respectivos escolhidos para outrens, espargem notícias falsas ou desinformam, conforme suas conveniências, o que vem transformando o Brasil em uma engrenagem emperrada, que não sustenta e nem tampouco provoca contributos necessários à boa governança.
O tabuleiro está montado para 2022, e reservando um favoritismo a Lula, que além de mitigar os ruidosos oponentes, põe a pensar uma terceira via, que pelo menos por ora, escolheu o silêncio como arma. Um silêncio que incomoda Lula, que tem sua estratégia definida, e que certamente não apoiará o impedimento do atual Presidente, preservando o para ser abatido no próximo pleito. A terceira via, viria desmontar o tabuleiro recém- montado, com a chancela do polo democrático que contrapõe à polarização cada vez mais nociva e que enxerga no “Bolsopetismo”, o bode na sala do Brasil, que deve ser retirado, mas que o seja por via democrática.
Lula, supera o seu pretenso adversário, Bolsonaro em capacidade cognitiva, e já percebeu a presa mais fácil de ser abatida. Ou teremos uma terceira via, com poder de primeira, ou testemunharemos o retorno de Lula, mas dessa vez, sem o beneplácito de um governo anterior, sem moeda forte, sem a casa limpa, sem o boom das comoditties, e com um PIB claudicante.
Caso se confirme Lula candidato, ele não mostrou a capacidade para desinfetar, desodorizar a sala ocupada por um bode, que nesse caso, em certa medida, é a personificação de sua política rasteira de sempre.
Parafraseando George Orwel em A revolução dos Bichos, só de imaginar um debate público entre Bolsonaro e Lula, antevejo “as criaturas do lado de fora, olharem de porco para homem, de homem para porco, mas já é impossível saber qual é qual”.
No Brasil de descontentes, a terceira via será muito bem vinda, para que finalmente se encerre o terceiro turno!