Bolsonaro, uma bomba relógio

“A ditadura quanto mais é dita, mais maldita fica.”

Graça Lima

Durante as manifestações de 2013, que teve como mote inicial, R$ 0,20 de reajuste no transporte público, mas com diversas pautas, um grupo tímido surgia no seio das manifestações, os adeptos da intervenção militar, mais tarde, o mesmo grupo, mais encorpado, invocava com familiaridade o artigo o art. 142CF/88. Com o advento do governo Bolsonaro, não por coincidência, um militar da reserva, a palavra de ordem é “intervenção militar com Bolsonaro no poder”, um grupo consolidado após a ascenção de Bolsonaro, que com voz ativa, faz com que o Presidente acredite que esta seja uma saída plausível para o seu desastroso governo e a sua manutenção no poder. Vale realçar que Bolsonaro venceu a eleição em 2018, com uma diferença de apenas 5% dos votos, e que todas as pesquisas qualitativas denotam um enxugamento de sua ora portentosa claque, o que denota uma efetiva queda de popularidade. Por mais que essa queda tenha efeito contrário ao que sugere seus fiéis seguidores, Bolsonaro enxerga com muita precisão, os perigos que permeiam seu mandato e flerta com a possibilidade de um golpe militar, ameaçando interferir no Supremo Tribunal Federal, o que até o momento fora sabiamente dissuadido pelos seus ajudantes de ordem.

Não podemos jamais esquecer as escabrosidades do passado, se não as vivenciamos, certamente, alguém muito próximo de nós terá vivido, ainda que não o seja, os livros de história não mentem, basta que procuremos outras fontes de consulta, chegaremos sempre ao período mais tosco de nossa história, quando as vozes eram caladas sob as solas dos coturnos.

No regime militar, que compreende o período de 1964 a 1985, os direitos fundamentais eram negados ao cidadão comum. Não havia liberdade de expressão ou direito de ir e vir. A censura era um instrumento utilizado corriqueiramente para abafar as vozes daqueles julgados subservientes – expressão inutilizada nos dias atuais, em tempos democráticos – os mais afetados pela truculência dos sensores e/ou generais, eram os artistas e jornalistas.

Temos uma liberdade conquistada à custa de muito sangue, mas não lidamos com ela. Para tanto, é necessário que usemos a transparência para que consigamos reverter situações que nos são impostas.

Bolsonaro blefa com o Centrão, que exigiu a cabeça do Chanceler Ernesto Araújo, Ministro das Relações Exteriores, promovendo uma reforma ministerial substancial e agressiva, envolvendo seis pastas, mas mantendo em certa medida nomes que afagam determinados partidos do bloco que lhe sustenta.

Na semana em que é lembrada a intervenção militar de 1964 (31/03/1964), Bolsonaro faz crer que um caos se estabelecerá no Brasil, deixando apreensiva a população não partidária ao governo ou contrária aos gritos pela intervenção.  Qualquer que seja o movimento do Presidente, teremos um parâmetro para o excruciante impedimento. Portanto, Bolsonaro blefa, Bolsonaro bravateia e Bolsonaro agoniza. Como resultado da última investida contra a democracia, Bolsonaro perdeu um crédito importante politicamente e militarmente. Ao substituir Fernando Azevedo e Silva (Ministério da Defesa), por Walter Souza Braga Neto, três oficiais, Comandantes das três armas, apresentaram conjuntamente, suas demissões, Edson Leal Pujol (Exército), Ilques  Barbosa (Marinha) e Antônio Carlos Bermudez (Aeronáutica). As demissões poderiam ter sido um movimento protocolar, praxe, mas prontamente aceitas pelo Presidente, um gesto até aqui inédito, os três comandantes das três armas se evadindo concomitantemente.

Bolsonaro sempre foi de baixo clero, enquanto na ativa, um tenente rebelde, que fora punido por conceder entrevista em revista de grande circulação, reclamando de seus vencimentos, expondo o soldo dos militares à época, julgado e condenado a quinze dias de prisão, ato contínuo, fora eleito a vereador no Rio de Janeiro pelo Partido Democrata Cristão (PDC), angariando votos de militares de patentes baixas; como Deputado, circulou na Câmara Federal em sete diferentes partidos, sempre no baixo clero, entre os deputados sem expressão. Não me surpreenderá se Bolsonaro, como de costume, arregimentar um contingente vindo de postos mais baixos das Forças Armadas e Polícias Militares em todo o Brasil, para mais uma tentativa de golpe de Estado. Bolsonaro não é dotado de capacidade cognitiva, por essa razão, as estratégias apresentadas para amedrontar seus pares políticos e cidadãos não partidários assustam, mormente, quando confrontamos os fatos e o seu histórico de trapalhadas.

Bolsonaro é um arremedo de Presidente, uma decepção, um desapontamento para aqueles que confiaram a ele seu voto. Sem muito esforço, mostrou ao povo, que sete mandatos como Deputado Federal, não lhe transformaram em estadista, mas considerado o pior Presidente da República desde a redemocratização. Os nostálgicos do período militar, que por razão ainda desconhecida, magnetizam um período sombrio de nossa história, encontram nesse mentecapto, anteparo no que pode ser o início de uma ditadura.

Lembremos que hoje, temos opinião e uma importante ferramenta para expô-la, a internet, onde difundimos em diferentes redes sociais, como os jornalistas e artistas de antanho, ao menos no quesito censura; sem o nome consagrado, o que nos restará, serão apenas rastros deixados em um caminho arenoso.

Ainda na esteira do autogolpe, o Deputado bolsonarista Victor Hugo (PSL) apresentou na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o dispositivo da Mobilização Nacional, que em tese daria ao Presidente da República o direito de intervir nas contingências dos Estados da Federação, requisição e ocupação de serviços, convocação de civis e militares para ações do Governo Federal. Importante destacar que o intento fora prontamente rechaçado ainda na CCJ, não chegando ao plenário da Câmara dos Deputados e logo reverberado com todos os seus artifícios nas redes sociais, demonstrando mais uma vez, que os tempos são distintos dos anos de chumbo. Hoje temos informação em tempo hábil e podemos perder essa conquista.

Com a tentativa frustrada de autogolpe, está medida a temperatura para o impeachement, e amplamente favorável, desde as manifestações de diferentes Ministros do STF, da negativa na CCJ do Projeto de Mobilização Nacional, bem como o clamor popular. É preciso celeridade, pois Bolsonaro não desistiu, há de tentar novamente. Bolsonaro tentou, mas ainda está no poder, é uma bomba relógio a ser desarmada.

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