HÁ SOLUÇÃO NO PAÍS EM QUE EU MORO

O escândalo do mensalão, veio à tona em 2005, durante o primeiro mandato do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT). Um escândalo de escoamento de dinheiro, que afetou ao PT, partidos aliados e seus diferentes quadros, tendo Lula passado incólume durante todo o processo, a ponto de se reeleger em 2006 e abençoado a quase desconhecida Dilma Rousseff em 2010.

 A Força Tarefa Operação Lava Jato, segue como referência ao escândalo de propinas de grandes empresas, como ponto facilitador em negócios com o Governo Federal. Liderada pelo Procurador Deltan Dallagnol, a Força Tarefa ganhou mais notoriedade que o próprio esquema desmantelado e levou a prisão, vários operadores financeiros, empresários, e atores políticos com qualquer que fosse a ligação com o governo. Durante o desmanche do esquema criminoso, Dilma passara impávida e ilesa, tendo sido reeleita, graças ao empenho de seu mentor, Lula, nas últimas semanas da campanha eleitoral do mesmo ano. Em que pese uma vitória apertada, por apenas 3,28% sobre Aécio Neves (PSDB), Dilma, iniciava seu calvário em 2015, o seu segundo e curto mandato.

Lula era um político aposentado em 2014, que relutava em participar da campanha de sua apaniguada. Mais ao final, com o risco de seu oponente, Aécio Neves vencer a eleição, Lula subiu ao palanque com a missão de desconstruir o adversário, e deu certo. Naquele momento, Lula já era alvo principal da Operação Lava Jato, para onde o conceito “follow the Money” (siga o dinheiro) o levaria. Com a Operação em seu encalço, decidira retornar efetivamente à vida pública, relegando o conforto de seu lar, com o fito exclusivo de se proteger.

Na campanha 2018, Jair Bolsonaro conquistava espaço relativo nas redes sociais. Com o atentado que sofrera em 06 de setembro do ano corrente, cresceu nas pesquisas, estando quase impossível tirá-lo do segundo turno, restava saber, contra quem seria a disputa, mas enquanto isso, Lula de dentro da cadeia, coordenava e ungia seu novo escolhido, Fernando Haddad (PT), que honrou o capital político do então presidiário e terminou o pleito com 44,87% ou 47.038.963 votos. Não se pode denegar a votação expressiva, àquele que dois anos antes, perdera a reeleição em São Paulo, com a pecha de pior prefeito da história do município. Em suma, Lula sobreviveu ao mensalão e mesmo que abatido pela Lava Jato, demonstrou poder de persuasão.

Sentado nos louros dos 55,13%, dos votos ou 57.797.847, em 2018, Bolsonaro jacta do populismo, e em uma manobra pra lá de arriscada, atraiu o PT para o seu campo com nomeações controversas e aproximação com o Centrão. Bolsonaro não versa uma conduta no mínimo razoável no que diz respeito aos cuidados com a pandemia, assumindo o negacionismo já folclórico, foi surpreendido pela liberação de Lula, com todos os seus direitos políticos. Lula se contrapõe imediatamente a Bolsonaro, assumindo o polo esquerdo de uma polarização exacerbada.

Em meio a essa dicotomia, 38% do eleitorado, clamam por uma terceira via, e o nome mais solicitado é o do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, que não por acaso, enfrenta um revés antes inimaginável. Após o vazamento de conversas, muitas vezes, conversas íntimas com seus pares e/ou promotores, a suspeição de Sérgio Moro está em voga no Supremo Tribunal Federal, sob a batuta do desequilibrado e iracundo Ministro Gilmar Mendes, que à boca pequena, dizem sobre um eventual pedido de impeachment almejado pelos doutos promotores da Operação Lava Jato, que isso teria sido discutido com Moro e por ele aprovado. O certo é que diante de tantos acontecimentos oriundos do vazamento de mensagens, elas são de interesse público, mas só as mensagens que defenestram a Operação Lava Jato são expostas. É necessário que se estoure o saco de confete e que todos participem dos fatos, pois o palanque da disputa eleitoral de 2018 ainda não foi desarmando e provável que seja reutilizado em 2022, sem que haja um novo discurso.

A polarização dá lugar a uma disputa tripla, em uma ponta, um governante fracassado, negacionista, complacente com os atos de corrupção dos seus filhos; em outra ponta, um experiente político, que enquanto presidente fruiu as glórias alcançadas pelo governo anterior, que sempre com discurso agressivo de luta de classes, atraiu um séquito de desfavorecidos, que são indiferentes aos atos de corrupção por ele cometidos, e não sou poucos. Na terceira ponta, o ex-juiz e ex-ministro da Justiça, que enquanto ocupava o primeiro cargo, conheceu o passado de Lula, e enquanto ocupou o segundo cargo, entendeu o que pretende Bolsonaro.

Com seus direitos políticos restabelecidos, Lula discursa contra o atual governo, que parece ter sentido o baque, pois Lula, julgado, condenado, mesmo após 400 recursos, alcançou a terceira instância do judiciário, mas o ministro Fachim, surpreendendo a todos, alegou que a 13ª Vara não é competente para julgá-lo, sendo assim, os processos inerentes à Lula serão remetidos para o Distrito Federal. Os processos começarão da estaca zero, com risco iminente de serem prescritos, o que nem de longe, transformam Lula em inocente, como ele apregoa, mas garante um discurso de quem está elegível. Ao seu lado, a grande mídia, representada pelos seus principais repórteres e âncoras, sobretudo a Rede Globo, que é constantemente ameaçada por Bolsonaro, inclusive de lhe tirar a concessão, que vencerá em 2022.

Bolsonaro, atordoado, ora ameaça mudar o discurso, a baixar o tom, ora navega em seus devaneios, com a certeza de que está cumprindo um bom mandato, só não está melhor porque a Suprema Corte lhe tolhe os direitos que ele julga serem dignos de um presidente da República. Com seus novos amigos do Centrão, articula mudanças no primeiro escalão, e com sua contumaz estupidez, delega a seus asseclas, funções nada funcionais para o combate ao novo coronavírus, como exemplo, a malfadada viagem dos “trapalhões” a Israel, onde foram conhecer um spray nasal, medicamento ainda embrionário, mas aqui cantado como a nova panaceia.

Em um silêncio que incomoda seus pretensos eleitores, Moro assiste a tudo do alto de sua frieza. O silêncio pode se justificar por diferentes razões, a principal, por ser um profissional a serviço da iniciativa privada, e talvez alguma fala possa confrontar seus projetos, outra razão, a que Moro não foi interpelado, apenas citado, e agindo com sua costumeira elegância, aguarda o melhor momento para se apresentar. Moro não se disse candidato, mas se assim o fizer, valerá a pena apresentar o seu plano de governo, mostrar o que pensa, sobre democracia, bem estar social, liberalismo econômico ou estatismo, sabemos que no campo jurídico, segurança pública, é um exímio agente, assim como no combate a corrupção. Além do mais, Moro deve se unir com quadros políticos, e ele conhece a maioria, nos seus piores vezos.

O jogo começou muito antes do programado, alguns peões já se movimentam, e serão em breve tomados, conforme o seu andamento, e sobrarão apenas as peças com substancial capital político, além, obviamente, suas habituais linhas auxiliares.

Citando três personagens inseridos em um cenário nebuloso, Lula se sobressai aos seus adversários no que tange à coisa pública, que, ao menos em seu primeiro mandato, usufruiu das benesses do Governo FHC, mantendo o mesmo diapasão em um momento de fartura, quando podia gastar os dividendos do boom das comodities, no segundo mandato, mudou o eixo da política externa, promovendo países do hemisfério sul. O que se sugere para a atualidade, Lula mais agressivo, movido por um ranço adquirido na prisão, nmas sem o mesmo vigor econômico de outrora. Bolsonaro abriu mão do comando em nome da governabilidade, ainda que sob a batuta de Arthur Lira (PP), enquanto, do seu valhacouto, Moro observa e aguarda o melhor momento para se movimentar.

Esperamos uma terceira via, que essa via seja alguém no circuito político, que tenha o domínio do tabuleiro, que preserve suas qualidades morais, e que possa enfrentar o sistema viciado ao qual, lamentavelmente, presenciamos.

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