Jair Bolsonaro e o Leão de Bagdá

“Mantenham-se alertas, pois a traição pode ocorrer em momentos de desconcerto”.

Saddam Hussein

Após acompanhar por dois anos, as falas e os rompantes de Jair Bolsonaro, após assistir as comparações, sobretudo com Donald Trump, os gritos advindos do seu auditório, aflorou em mim algumas reminiscências que me remeteram a um passado distante, que apontam o alter ego de Bolsonaro. Para tanto, com a licença do leitor, dedico um espaço aqui para dividir algo pessoal, que irá confirmar a comparação. Bolsonaro é para o Brasil o que Saddam Hussein foi para o Iraque.

No final dos anos 1970, o regime militar brasileiro mantinha uma relação comercial pujante com o Iraque de Saddam. Saddam Hussein assumiu oficialmente o país em 1979, acumulando as funções de presidente e primeiro ministro, mas como vice-presidente do moribundo Ahmed Hassan Al-Bakr, comandava o país há mais de dez anos.

Naquele período, meu pai foi contratado por uma empreiteira que realizava sua primeira grande obra no Iraque, para onde fora transferido, uma ferrovia que ligava a capital Bagdá a Akashat, Al Qaim, ao norte do Iraque, divisa com Turqia e Síria. Após quatro meses, minha mãe e quatro filhos, desembarcamos no deserto da Mesopotâmia, já com toda a estrutura montada para nossa acolhida, hospital, escola, supermercado com produtos brasileiros ou no mínimo, produtos ocidentais.  Havia por volta de dez acampamentos para os mais de dez mil funcionários, alguns, os que exerciam cargo de confiança, com suas respectivas famílias, sendo a esmagadora maioria, brasileiros.  Meu pai foi nos receber no aeroporto e no caminho para casa – a 215 km ao norte de Bagdá, Al-baghdadi -, ele participava a minha mãe das peculiaridades de nossa nova casa. Eu, no banco de trás, curioso, como qualquer criança e deslumbrando diante de tantas novidades prestava muita atenção, e guardo cada palavra dita por ele:

– Aqui, todo menino já nasce militar, o homem é para servir o país, a mulher é para servir o homem; o regime de Saddam protege a nós, estrangeiros, em certa medida, enquanto estamos a serviço do país; Foram muitas informações ao longo da estrada, mas a mais impactante de todas, parece que estou ouvindo agora:

­- No Iraque, você pode falar até de Deus, mas nunca fale mal de Saddam Hussein.

Esta informação vinha sendo confirmada por mim, a cada vilarejo ou cidade, Fallujah, Habbaniya, Ramadi, Hit, que em suas entradas havia pôsteres ou estátuas de Saddam Hussein. Com o passar do tempo, convivi com iraquianos adolescentes que vestiam camisas com a estampa do líder, ostentavam relógios com sua fisionomia, entre tantos objetos que regalavam o Leão de Bagdá, como era carinhosamente reconhecido.

Os programas de TV, mesmo os programas infantis eram interrompidos para apresentar as ações de Saddam Hussein à classe mais desprotegida financeiramente. Entrava nas casas mais pobres e levava pessoalmente, mantimentos para os pobres incautos que emocionados, prestavam todas as reverências ao seu líder; atravessar o Rio Tigre a nado, galopar seu cavalo branco, empunhando uma espada prateada; ostentar sua AK 47, atirar para o alto era um modo de celebração contumaz, qualquer que fosse a conquista.  Aquilo comovia a todos nós, a figura de um bonachão que transmitia segurança a seu povo, e aos poucos nos conquistava. Sim, eu tinha uma camiseta de Saddam Hussein, tínhamos pôsteres de Saddam, para cobrir a o interior das malas e não sermos incomodados na alfândega, pois estávamos demonstrando respeito ao grande estadista.

Bagdá era a casa de Saddam, a avenida principal se chamava, Avenida Vinte o oito de Abril, assim como o “Shopping  Vinte e Oito de Abril” ( Iraq Store April 28th), em alusão a sua data de aniversário,  o portentoso aeroporto construído em sua gestão, como presidente, nos anos 1980, era o Aeroporto Internacional Saddam Hussein. Saddam Hussein era um mito!

Quando em férias no Brasil, e até mesmo após o retorno, ouvi de muitas fontes fidedignas de que Saddam Hussein era um ditador sanguinário, e ousei refutar, aliás, eu estava lá, e contemplei a figura simpática de um homem de bem, um homem cioso de seu povo. Após ler duas biografias de Saddam, vi como as coisas se encaixavam, e percebi que vivíamos em um oásis, ladeado por um deserto de areia coberta de sangue.

O uso da TV estatal para transmitir uma festiva partida de futebol, o nado em mar aberto, no Guarujá, os passeios de moto terrestre e moto aquática, tudo em meio a uma pandemia, a maior do século, mas os espetáculos são relegados em nome do grande número de obras de infraestrutura inauguradas em dois anos de mandato, mesmo expediente utilizado pelo ditador Saddam Hussein, cujo regime, ceifou número estimado de 250 mil iraquianos, enquanto a pandemia do novo Coronoavírus, no país de Bolsonaro, se aproxima de 200 mil vidas. A diferença entre ambos, além da intelectualidade, está na conduta, enquanto o primeiro era um homem de poucos sorrisos, que tratava a coisa pública, ainda que com aparente seriedade, o mito tupiniquim, adotou a pose de um adolescente transviado que não cumpre sequer as determinações sancionadas por ele mesmo.

Sempre quando questionados sobre a nossa democracia, líderes de dois dos três poderes, entoam o mantra: “no Brasil, as instituições estão funcionando”. Por sorte, podemos atestar essa verdade, as instituições funcionam como pudemos presenciar os últimos eventos, mormente àqueles dirigidos por cortes constituídas; faço uma ressalva, a de que as instituições ainda funcionam, mas há o iminente risco de ruptura sem precedente na história do Brasil.

As doutrinas políticas jurídicas no Brasil arremedam a tradição norte-americana, especialmente, na nomeação para cargos de cortes superiores, e Bolsonaro, se valendo disso, cerca se de figuras distantes no que tange à ideologia por ele entronizada. As recentes nomeações dão um norte do que se pode acontecer com as instituições que ainda funcionam. Urge um processo de impeachment, que apesar de inviável no momento, pela composição do legislativo e todas as amarras do Presidente junto ao Centrão. A depender do resultado das eleições no Congresso Nacional, sem nos esquecermos de que em julho próximo, o Ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal, completará 75 anos e deixará vaga uma cadeira, já prometida pelo Presidente a uma figura terrivelmente evangélica, tendo como favorito, o Ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça. 

A saber, os processos envolvendo o mandatário da nação, são julgados no colegiado maior da Justiça, a Suprema Corte. Bolsonaro está em vias de romper o funcionamento das instituições, pari passu ao encantamento de sua claque. A parcela de brasileiros que já entenderam o rumo sabe que não podemos chegar ao que Saddam reservou ao seu povo.

 As instituições, para funcionar, encontram armas de destruição em massa onde não há ou encontram uma pedalada fiscal, que embora seja passível de impedimento, é muito pouco em relação aos desmandos do  atual governo, algo alentador, pois uma catarse se prenuncia. Sobre as similaridades entre Bolsonaro e Trump, somente nos quesitos humor e incompetência, no quesito perversidade, está mais para “Assad u Baghdad” (Leão de Bagdá).

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